Considero saudável ficar só a maior parte do tempo. Estar em companhia, mesmo com a melhor delas, logo se torna enfadonho e dispersivo. Gosto de ficar sozinho. Nunca encontrei companhia que fosse tão companheira como a solidão. Na maioria das vezes somos mais solitários quando circulamos entre os homens do que quando permanecemos em nosso quarto. Um homem enquanto pensa e trabalha está sempre sozinho, onde quer que esteja. Não se mede a solidão pelas milhas de espaço que distam um homem de seus companheiros. O estudante realmente aplicado, em meio às superlotadas colméias da Universidade de Cambridge, é tão solitário como um dervixe em pleno deserto. O lavrador pode trabalhar sozinho no campo ou nos bosques o dia inteiro, cavoucando com a enxada ou cortando lenha, e não se sentir solitário, porque está ocupado; mas quando retorna ao lar à noite não pode se recolher no quarto só, à mercê de seus pensamentos, e tem que ir aonde pode "ver gente" e distrair-se, para, como julga, recompensar-se da solidão de seu dia; e assim ele se pergunta como pode o estudante ficar sozinho em casa a noite inteira, além de grande parte do dia, sem se entediar e sem crises de tristeza; mas ele nem de longe se dá conta de que o estudante, embora em casa, continua trabalhando em seu campo, cortando a lenha de seus bosques, tal e qual o lavrador, e que por sua vez procura a mesma distração e companhia que este, só que provavelmente de forma mais condensada.
segunda-feira, 4 de abril de 2022
terça-feira, 29 de março de 2022
Walden ou a vida nos bosques
Costumo pensar que os homens não são tanto os guardadores de rebanhos quanto os rebanhos são os guardadores dos homens, pois aqueles são bem mais livres. Homens e bois trocam serviços; mas se considerarmos apenas o trabalho necessário, os bois levam vantagem, o campo deles sendo bem maior. No trabalho de intercâmbio o homem faz um pouco do que lhe cabe nas seis semanas de coleta do feno, faina que não é brincadeira. Certamente nenhuma nação que vivesse com simplicidade em todos os aspectos, isto é, nenhuma nação de filósofos cometeria o desatino de usar o trabalho dos animais. É verdade que nunca houve e é provável que nunca venha a existir uma nação de filósofos, nem tampouco estou convicto de que tal existência seja desejável. Entretanto, eu jamais amansaria ou alimentaria um cavalo ou um touro por conta de qualquer serviço que viesse a me prestar, simplesmente por medo de me tornar cavaleiro ou vaqueiro; e se a sociedade aparentemente ganha procedendo assim, estaremos certos de que o que representa lucro para uma pessoa não representa prejuízo para outra, e de que o garoto da cavalariça não mereça sentir-se tão satisfeito quanto o patrão? Concordo que certas obras públicas não teriam sido executadas sem esse tipo de ajuda, e que o homem divida tal glória com o boi e o cavalo; deduz-se daí que sozinho o homem não teria realizado obras ainda mais dignas de si? Quando os homens começam a fazer algo, não apenas supérfluo ou artístico mas faustoso e inútil, com a assistência dos animais, torna-se inevitável que alguns poucos façam o trabalho permutável com bois, ou, em outras palavras, que se convertam nos escravos dos mais fortes. Desse modo o homem não trabalha apenas para o animal que há dentro dele, mas por um símbolo, para o que há fora dele. Embora disponhamos de muitas casas imponentes, quer de tijolos, quer de pedras, a prosperidade do fazendeiro ainda se calcula pela proporção em que o estábulo sobrepuja a casa. Esta cidade é conhecida em todos os arredores por possuir as maiores estrebarias para bois, vacas e cavalos, construções que não ficam a dever nem aos edifícios públicos; por outro lado contam-se nos dedos os locais aqui onde se pode rezar ou discursar com total liberdade. Em vez de se autocelebrarem por meio da arquitetura, as nações não deveriam fazê-lo pelo poder de seu pensamento abstrato? O Bhagvat-Gita é muito mais admirável que todas as ruínas do Oriente. Torres e templos são luxo de príncipes. A mente simples e livre não moureja sob as ordens de nenhum príncipe. O espírito não é privilégio de nenhum imperador, nem lhe são exclusivos, a não ser em insignificante medida, a prata, o ouro e o mármore. Digam-me com que finalidade se malha tanta pedra? Quando estive na Arcádia, não vi pedras sendo lavradas. As nações são possuídas pela louca ambição de perpetuarem sua memória com a soma de esculturas que deixam. Que tal se esforços semelhantes fossem despendidos no sentido de aperfeiçoar e polir sua conduta? Uma obra de bom senso seria mais memorável que um monumento da altura da lua. Prefiro contemplar as pedras em seu lugar de origem. A grandeza de Tebas foi uma grandeza vulgar. O curto muro de pedras que delimita o terreno do homem honesto tem mais cabimento que as cem portas de Tebas estendendo-se além do verdadeiro fim da vida. Enquanto religiões e civilizações bárbaras e pagãs constroem templos esplêndidos, o que podeis chamar de cristandade, não o faz. A maioria da pedra que a nação talha se destina ao próprio túmulo. A nação se enterra viva.
quinta-feira, 24 de março de 2022
Walden ou a vida nos bosques
A absoluta simplicidade e o despojamento da vida que o homem levava nos tempos primitivos tinham pelo menos a vantagem de deixá-lo ser hóspede da natureza. Quando se sentia retemperado pelo alimento ou pelo sono, tinha a estrada novamente diante de si. Morava neste mundo como se fosse numa tenda e estava sempre palmilhando vales, cruzando planícies, galgando cumes de montanhas. Mas vejam só! Os homens se transformaram nos instrumentos de seus instrumentos. Aquele que na maior liberdade apanhava os frutos nas árvores quando sentia fome, tornou-se agricultor; o que se deixava ficar debaixo de uma árvore por abrigo, virou caseiro. Não mais acampamos por uma noite, mas nos instalamos na terra esquecidos do céu. Adotamos o Cristianismo como se se tratasse simplesmente de um método de agricultura aperfeiçoado. Construímos para este mundo uma mansão familiar e para depois da morte um jazigo de família. As melhores obras de arte do homem exprimem a luta para libertar-se desta condição, porém o que resulta de nossa arte é tão só tornar confortável este estado inferior e nos fazer esquecer do outro mais elevado. Nesta cidade não há realmente lugar para uma obra de arte, se tivéssemos que herdar alguma para permanecer, porque nossas vidas, casas e ruas não lhe oferecem um pedestal condigno. Não há um prego em que se pendure um quadro, nem uma estante onde se coloque o busto de um herói ou de um santo. Quando reflito sobre a maneira pela qual nossas casas são construídas e pagas, ou deixam de ser pagas, e sua economia interna administrada e mantida, admiro-me que, enquanto uma visita se entretém vendo bugigangas sobre a lareira, o assoalho não ceda sob seu peso, deixando-a cair em pleno porão de encontro afinal com alicerces grosseiros mas sólidos e honestos. Não posso deixar de perceber que a vida considerada refinada e rica não passa de algo a que se ascendeu por um salto, e não consigo me deixar envolver no gozo das belas artes que a enfeitam, a atenção totalmente atraída para o salto, porque não me sai da mente que o maior pulo genuíno, isto é, graças exclusivamente a músculos humanos, de que se tem notícia até hoje, é o de certos árabes nômades que segundo consta atinge cerca de oito metros. Não resta dúvida de que, sem um apoio artificial, além dessa distância o homem dá com os costados no chão. A primeira pergunta que sou tentado a colocar ao proprietário dessa grande impropriedade é: "Quem te sustenta? Estás no rol dos noventa e sete que fracassaram ou dos três que tiveram êxito?" Responde-me primeiro a essas questões e então talvez eu possa dar uma olhada nas tuas quinquilharias e achá-las ornamentais. O carro adiante dos bois não é bonito nem útil. Antes de podermos adornar nossas casas com belos objetos as paredes devem estar nuas, nossas vidas devem estar despojadas, deve haver a base de uma boa administração doméstica e de uma vida harmoniosa. Todavia, o gosto pelo belo cultiva-se mais ao ar livre, onde não há casa nem caseiro.
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022
Walden ou a vida nos bosques
A maioria dos luxos e muitos dos chamados confortos da vida, não só são dispensáveis como constituem até obstáculos à elevação da humanidade. No que diz respeito a luxos e confortos, os mais sábios sempre viveram de modo mais simples e despojado que os pobres. Os antigos filósofos chineses, indianos, persas e gregos eram uma classe que se notabilizava pela extrema pobreza de bens exteriores, em contraste com a riqueza interior. Não sabemos muito sobre eles, admira porém que saibamos tanto quanto sabemos. O mesmo acontece com reformadores e benfeitores mais recentes da nacionalidade deles. Ninguém pode ser um observador imparcial e sábio da raça humana, a não ser da posição vantajosa que chamaríamos de pobreza voluntária. O fruto de uma vida de luxo é também luxo, seja em agricultura, comércio, literatura ou arte. Hoje em dia há professores de filosofia, mas não há filósofos. Contudo é admirável ensinar filosofia porque um dia foi admirável vivê-la. Ser um filósofo não é apenas ter pensamentos sutis, nem sequer fundar uma escola, mas amar a sabedoria a ponto de viver segundo seus ditames uma vida de simplicidade, independência, magnanimidade e confiança. É solucionar alguns problemas da vida não só na teoria mas também na prática. O sucesso dos grandes eruditos e pensadores assemelha-se ao dos cortesãos, não é um sucesso de soberano ou de homem. Arranjam meios de viver sempre em conformidade, da mesma forma que o fizeram seus pais, e de modo algum são os progenitores de uma raça de homens mais nobres. Entretanto por que será que os homens degeneram sempre? O que levará as famílias a se acabarem? Qual é a natureza do luxo que enerva e destrói as nações? Estamos certos de que essa natureza não existe em nossas próprias vidas? O filósofo está sempre à dianteira do seu tempo, mesmo no que se relaciona com as formas exteriores da sua vida. Ele não se alimenta, nem mora, nem se veste e se aquece como seus contemporâneos. Como um homem pode ser filósofo sem manter o seu calor vital por métodos melhores que os de outros?
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022
Walden ou a vida nos bosques
Vejo rapazes, concidadãos meus, cuja má sorte foi terem herdado fazendas, casas, celeiro, gado e instrumentos agrícolas, porque essas coisas são mais fáceis de adquirir do que descartar-se delas. Melhor seria se tivessem nascido em pasto aberto e sido amamentados por uma loba a fim de que pudessem enxergar melhor a terra a que foram chamados a cultivar. Quem os fez servos do solo? Por que comeriam de seus vinte e quatro hectares quando o homem está condenado a comer apenas a porção de seu barro? Por que começariam a cavar seus túmulos logo que nascem? Têm é que viver a vida, deixando todas essas coisas para trás e continuando o melhor que puderem. Quantas pobres almas imortais já não encontrei esmagadas e sufocadas sob suas cargas, rastejando e empurrando pela estrada da vida afora celeiros de vinte e cinco metros por quinze, com seus estábulos de Augias nunca limpos, mais de quarenta hectares de terra para amanho, sega, pastagem, sem falar nos bosques! Quem nada possui não luta com encargos desnecessários herdados e já considera bastante a tarefa de sujeitar e cultivar seu quinhão de carne.
segunda-feira, 31 de janeiro de 2022
Walden ou a vida nos bosques
Coerente com sua condição de autor romântico, Thoureau apresenta a natureza como alvo de uma experiência pessoal e direta, alicerçada na emoção. Para ele, o ser humano não está acima da natureza, mas é parte integrante dela. A cosmovisão de Thoreau não propõe uma hierarquia com o homem no ápice feito dono ou rei do mundo. Afirma que “a natureza do homem não difere muito daquela nos animais” – percepção corroborada, mais tarde, por experiências científicas, inclusive as realizadas pelo psicólogo norte-americano Skinner, autor, diga-se de passagem, de uma utopia educacional intitulada “Walden Two”. É provável que a rejeição dos transcendentalistas no que se refere à onipotente autoridade da Bíblia esteja também no cerne dessa atitude para com a natureza. De acordo com Arnold Toynbee, as raízes da dominação sobre a natureza e consequente poluição ambiental devem ser pesquisadas nas religiões que, como a hebraica, dissociam a ideia de Deus da ideia de Natureza, reservado ao homem um papel independente como ser superior destinado a governar o mundo.
Não foi aquela a única intuição profética de Thoureau. Ele também alude a fenômenos que se tornou realidade no século XX: a aviação, a conquista do espaço, o conhecimento da percepção extra-sensorial. Registre-se, ainda, a sua concepção da natureza como um ecossistema, pois aponta a cadeia que vincula a sobrevivência dos seres e a identificação das criaturas com seus ambientes. Assim, tem-se além do amor franciscano, a reverência panteística que o torna um ecologista de vanguarda muito tempo antes que as populações urbanizadas e vítimas do progresso industrial se conscientizassem da poluição e se voltassem para a preservação e a defesa do patrimônio natural.