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sexta-feira, 7 de outubro de 2016

O terceiro Reich

Ao acordar encontro Clarita no quarto, está aos pés da cama com a sua farda de empregada de quartos, a olhar para mim. Não sei porque é que a sua presença me faz feliz. Sorrio-lhe e peço-lhe que se meta na cama comigo, embora sem me aperceber o faça em alemão. De que maneira é que Clarita me entende é um mistério, a verdade é que, prudentemente, primeiro fecha a porta por dentro e depois encolhe-se ao meu lado, sem tirar nada, apenas os sapatos. Tal como no nosso encontro anterior, a sua boca cheira a tabaco negro, o que se torna muito atractivo numa mulherzinha como ela. Segundo a tradição, dos seus lábios deveria desprender-se um gosto a chouriço e alhos ou a pastilha de mentol. Alegro-me que não seja assim.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

2666

Era ateu e há anos que não lia livro nenhum, apesar de entesourar em sua casa uma biblioteca mais do que decente sobre temas da sua especialidade, além de alguns livros de filosofia, história do México, e um romance ou outro. Às vezes pensava que não lia precisamente por ser ateu. Digamos que a não leitura era o degrau mais alto do ateísmo ou pelo menos do ateísmo como ele o conhecia. Se não acreditas em Deus, como acreditar na porcaria de um livro?, pensava.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

2666

Um dos empregados era um farmacêutico quase adolescente, extremamente magro e de óculos grandes que à noite, quando a farmácia estava de turno, lia sempre um livro. Uma noite, Amalfitano perguntou-lhe, para dizer alguma coisa enquanto o jovem procurava nas prateleiras, de que livros gostava ele e que livro era aquele que estava a ler naquele momento. O farmacêutico respondeu-lhe, sem se virar, que gostava dos livros tipo A Metamorfose, Bartleby, Um Coração Simples, Um Conto de Natal. E depois disse-lhe que estava a ler Boneca de Luxo, de Capote. Pondo de lado que Um Coração Simples e Um Conto de Natal eram, como o nome deste último indicava, contos e não livros, mostrava-se revelador o gosto deste jovem farmacêutico ilustrado, que talvez noutra vida tenha sido Trakl, ou que talvez nesta ainda lhe estivesse reservado escrever poemas tão desesperados como o seu distante colega austríaco, que preferia claramente, sem discussão, a obra menor à obra maior. Escolhia A Metamorfose, em vez de O Processo, escolhia Bartleby em vez de Moby Dick, escolhia Um Coração Simples em vez de Bouvard e Pécuchet, e Um Conto de Natal em vez de Um Conto de Duas Cidades ou de As Aventuras Extraordinárias do Sr. Pickwick. Que triste paradoxo, pensou Amalfitano. Já nem os farmacêuticos ilustrados se atrevem com as grandes obras, imperfeitas, torrenciais, as que abrem caminho no desconhecido. Escolhem os exercícios perfeitos dos grandes mestres. Ou, o que é a mesma coisa, querem ver os grandes mestres em sessões de treino de esgrima, mas nada querem saber dos combates a sério, nos quais os grandes mestres lutam contra aquilo, esse aquilo que nos atemoriza a todos, esse aquilo que nos acobarda e verga, e há sangue, feridas mortais e fetidez.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

2666

Apaixonar-me-ia por ela até à morte, pensou. Uma hora depois já tinha esquecido por completo o assunto.

domingo, 2 de dezembro de 2012

2666

Os vinte minutos iniciais tiveram um tom trágico onde a palavra destino foi usada dez vezes e a palavra amizade vinte e quatro. O nome de Liz Norton foi pronunciado cinquenta vezes, nove delas em vão. A palavra Paris foi dita em sete ocasiões. Madrid, em oito. A palavra amor foi pronunciada duas vezes, uma por cada um. A palavra horror foi pronunciada em seis ocasiões e a palavra felecidade numa (empregou-a Espinoza). A palavra resolução foi dita em doze ocasiões. A palavra solipsismo, em sete. A palavra eufemismo, em dez. A palavra categoria, no singular e no plural, em nove. A palavra estruturalismo, numa ( Pelletier). O termo literatura norte-americana, em três. As palavras jantar e jantamos, pequeno-almoço e sandes, em dezanove. As palavras olhos, mãos e cabeleireira, em catorze. Depois a conversa tornou-se mais fluida.