A humanidade caminha em frente, aperfeiçoando as suas forças. Tudo o que agora é inacessível para ela, um dia há-de tornar-se próximo, compreensível, só que é necessário trabalhar, ajudar com todas as forças aqueles que procuram a verdade. Entre nós, na Rússia, por enquanto ainda há poucas pessoas de trabalho. A esmagadora maioria dos intelectuais que conheço não fazem nada e, por enquanto, ainda não têm capacidade para trabalhar. Consideram-se a si próprios intelectuais, mas tratam a criadagem por «tu», tratam os mujiques como snimais, estudam pessimamente, das ciências só sabem falar, das artes pouco entendem. São todos muito sisudos, com aquelas caras muito sérias, todos falam unicamente de coisas importantes, filosofam a torto e a direito, e entretanto, à vista de todos, os operários alimentam-se horrivelmente, dormem aos trinta e aos quarenta no mesmo quarto, sem ao menos terem uma almofada para a cabeça, com percevejos por todo o lado, o fedor, a humidade, a imundície moral... Pelos vistos, as nossas belas conversas só existem para nos enganarmos a nós próprios e aos outros! Mostrem-me onde estão as creches de que tanto se fala, onde estão as salas de leitura! Só existem nos romances, na realidade não existem. Existe é a imundície, a vulgaridade, os hábitos asiáticos... E não gosto, e tenho medo, das fisionomias muito sérias, tenho medo das conversas sérias. O melhor é ficarmos calados!
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quinta-feira, 27 de novembro de 2008
sábado, 19 de janeiro de 2008
A Vida de Anton Tchékhov
As grandes peças de Tchékhov foram para o teatro russo um acontecimento tão considerável, que requerem um estudo especial. Elas transgrediam todas as regras da dramaturgia do seu tempo; introduziam na cena a vida quotidiana, as pessoas simples, a linguagem de todos os dias; obrigavam o encenador e os intérpretes a abandonar o que o teatro tinha de teatral, as suas convenções habituais... O diálogo de Tchékhov possui uma particularidade a que é uso chamar-se o seu «antetexto», espécie de corrente submarina que passa, silenciosa, por detrás das palavras pronunciadas em voz alta. Esse antetexto, exprimindo os sentimentos e pensamentos que estão atrás das palavras, destinadas umas vezes a melhor ocultar sentimentos e pensamentos e outras vezes simplesmente inábeis e arbitrárias, palavras como nos surgem na vida - esse antetexto dá às peças de Tchékhov a sua profundidade, uma terceira dimensão. Com a ajuda do actor, Tchékhov fá-lo entender ao público e é o antetexto que mantém os espectadores em suspenso, não obstante a ausência de intriga, de acção. Teatro de atmosfera, se se quiser, teatro do inefável, o qual não é, todavia, um fim em si: Tchékhov mostra-nos os motivos dessa inefabilidade russa do fim dos anos 90. Nessa época, em que já qualquer coisa começava a «troar», Tchékhov apurava o ouvido, principiava a querer, a esperar e a manifestar nas suas peças a sua crença e a sua esperança.
segunda-feira, 7 de janeiro de 2008
Três Irmãs
VERCHÍNIN - Não frequentei a academia militar, os meus estudos são iguais aos seus; leio muito, mas não sei escolher as minhas leituras, talvez não leia o que deveria ler, mas, ao mesmo tempo, quanto mais vivo mais quero saber. O meu cabelo está a ficar grisalho, sou quase um velho, mas sei pouca coisa, ah, sei tão pouco! De qualquer modo, parece-me que sei o mais importante, o mais verdadeiro, e a fundo. Gostava de provar-lhes que a felicidade é coisa que não existe, que não deve existir, que, para nós, nunca existirá... Nós apenas devemos trabalhar, trabalhar; quanto à felicidade - isso fica para os nossos longínquos descendentes.
Pausa.
Se não é para mim, é para os descendentes dos meus descendentes.
domingo, 29 de abril de 2007
A Gaivota
TRÉPLEV
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Pois é, chego cada vez mais à conclusão de que o problema não são as formas velhas ou as formas novas, mas precisamente o que escrevemos, sem pensarmos em quaisquer formas, escrevemos porque isso jorra livremente da nossa alma.
segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007
Anton Tchékhov
Quem já viveu no campo durante o Inverno e conhece a monotonia dos longos serões, tristes e calmos, em que nem mesmo se ouvem ladrar os cães ao longe, no negrume da noite, e até os relógios parece que estão cansados de bater o seu tiquetaque; e aqueles que, nessas noites, foram despertados pela voz da consciência, de súbito alarmada, e tentaram ora dormir, ora analisá-la, compreenderão como me distraía e deliciava a voz de minha mulher, num quartinho confortável, ainda quando me dizia que era um homem perverso…
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