Mostrar mensagens com a etiqueta Pedro Peixoto. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Pedro Peixoto. Mostrar todas as mensagens

sábado, 28 de novembro de 2009

O Sono

Escrevo memórias no soalheiro entardecer lisboeta. Relembro a vida fugidia e aguardo pelo velado futuro. O chão marmóreo sob os meus pés gela com estes, esfria-me totalmente e torna-me sorumbático como as coisas. Se escrevo algo metálico e reluzente a minha própria pele se vitrifica e ameaça crepitar. Se ostento o punho que comanda a escrita ornamento as palavras que ficam como pedras com salitre. Se atravesso a distância real que se afasta do meu peito abandono a impressão fugaz da visão. Se assalto a vida imediata destruo a barreira entre desejo e objecto. Se dou um passo mais que o meu corpo desprezo o coração que me quer tanto. O dia é retalhado e o que escrevo é recortado da vida que decorre um pouco acima. Mas atemoriza-me transmitir uma distorção que não é cognoscível. Escapar-me o hiato abismal que é fronteira de tudo o que se esconde arrepia-me e soterra-me num fogo rubro e destruidor. Esta chama que faz em mim o desespero puro consome o meu corpo até à medula, e eu todo reajo com espasmos que não se vêm. Assim que tudo é cinza o incêndio extingue-se e o corpo incha e impregna-se de água. Como um circuito de expurgação.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Escravo

Será escura a câmara da resposta, o baú que o homem procura há eras ansioso? Faltará deixar de querer, renunciar à pergunta madrasta e escravizante? Sou o filho cativo da pergunta predilecta. Mais que um vislumbre de resposta, suga-me a palavra única que materializa o sentimento que corre por mim dentro e me pesa como o Universo nos ombros.

segunda-feira, 16 de abril de 2007

Sanidade

Não somos, surpreendentemente, o último estágio evolutivo. Na verdade, a nossa maior diferença para com todas as outras formas de vida é esta desmotivante consciência das nossas próprias limitaçõs, e não da nossa superioridade. Porque a severa e imperial vantagem que detemos é inatamente sentida e, por conseguinte, óbvia. Subtil é a irónica capacidade de antevermos estados futuros de ser, através da observação da evolução prévia. Então nós, que inaugurámos a instituição que é pensar, somos forçados a reconhecer que esta poderá estar ainda presa num estado muito primário, distante de uma concretização total e asfixiante sobre o corpo. É-nos então possível antever um semelhante domínio, mas é-nos negado o direito a tê-lo para além de qualquer anseio. Em suma, a própria razão que nos sustenta e dá alento é também a grande fonte de insatisfação humana. Portanto, postulo: nenhuma forma de vida saudavelmente constituída pode querer ser futuramente o que não é. Se deseja, é porque recusa a sua própria enfermidade.
Estar são é não suspirar.