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domingo, 19 de outubro de 2008

Onde Vamos Morar

GUSTAVO
Pois não, não tens dinheiro para isso.
Mas tens lábia para as lições de moral.
Comigo não vale a pena.
Eu também já andei aí de rojo à procura do almoço no lixo.
Já me esfolei, já me mijei, já me caguei todo
um arrepio na espinha de cada vez que se abria uma porta
passei fome, passei por isso tudo e agora tu olhas para mim
olhas para mim aqui com o copo na mão e a cigarrilha na bpca
aqui na boca, sem medo
e pensas:
"Ah, é um burguês de merda, ou um novo rico ou o caralho"
e eu digo-te
"pró caralho! pró caralho!"
porque se eu tenho isto na mão e isto na boca é porque andei aí de rojo a lamber o chão
é porque vim para esta cidade com um objectivo e agora até sou um tipo feliz
por muito que isso te custe
um tipo que está bem na vida, seu burguês de merda
tu é que és
chegas a casa e escreves um poema com as impressões do dia.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

A Minha Mulher

PAI
(...) Anda toda a gente com a mania que é rico. Depois um dia acordam, põem-se a coçar os bolsos e apertam a gravata até caírem para o lado. É assim que as coisas acabam. É como dizia o meu tio-avô Matos: a única maneira de introduzir inteligência no espiríto desta gente é enfiar-lhes o cano da caçadeira cagueiro acima e pô-los a dizer a tabuada de trás para a frente. Nunca mais cá chega a civilização. Anda tudo enfiado nas mercearias a roer maçãs, uns em cima dos outros, ou a cagar prosa nas colunas dos jornais. Este país está a precisar de um banho de sangue, é o que eu digo. E mais vale tarde que nunca.

A Minha Mulher

MÃE
Alexandre, é isso. Alexandre. Bebe à vonade, Alexandre. Eu ando a beber há trinta e seis anos e ainda não fiquei bêbeda.