Mostrar mensagens com a etiqueta Lev Tolstoi. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Lev Tolstoi. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 9 de junho de 2023

A morte de Ivan Ilitch

Todos vêem que ele tem dificuldades e dizem-lhe "Podemos interromper, se está cansado. Descanse." Descansar? Não, não está cansado e acabam a partida. Estão sombrios e silenciosos. Ivan Ilitch sente que foi o responsável por aquele tom soturno, e não consegue dissipá-lo. Ceiam e separam-se, e Ivan Ilitch fica sozinho com a consciência de que a sua vida está envenenada para ele, envenena a vida dos outros e que esse veneno não diminui, mas penetra cada vez mais no seu ser.

Com essa consciência, e com a dor física e o horror, vai deitar-se na cama e muitas vezes não dorme com dores a maior parte da noite. E de manhã tem de se leveantar outra vez e veste-se, vai para o tribunal, fala, escreve, e se não vai, fica em casa com aquelas vinte e quatro horas do dia, cada uma das quais um tormento. E tem de viver assim à beira da morte sozinho, sem uma única pessoa que o compreenda e tenha pena dele.

domingo, 4 de junho de 2023

A morte de Ivan Ilitch

 Muito depressa, não mais que um ano depois do casamento, Ivan Ilitch compreendeu que a vida conjugal, embora acrescente algum conforto à vida, no fundo é um assunto muito complicado e difícil em relação ao qual, para cumprir o seu dever, isto é para levar uma vida honesta, aprovada pela sociedade, é necessária uma atitude determinada, tal como para as funções oficiais.

E Ivan Ilitch adoptou essa atitude em relação à vida de casado. Exigia da vida familiar apenas os confortos - o jantar, a esposa em casa, a cama - que ela lhe podia dar, e principalmente uma decência exterior, detrminada pela opinião pública. 

terça-feira, 9 de maio de 2023

A morte de Ivan Ilitch

 Gozavam todos de boa saúde. Não se podia chamar doença àquilo de que Ivan Ilitch por vezes falava: tinha um gosto estranho na boca e um certo desconforto no lado esquerdo do ventre.

Mas aconteceu que esse desconforto começou a aumentar e a transformar-se não ainda em dor, mas numa sensação de peso constante, acompanhada de mau humor. Esse mau humor, que se acentuava cada vez mais, começou a arruinar a vida agradavél que se estabelecera na família Golovin.

segunda-feira, 9 de agosto de 2021

Guerra e Paz

 Dividia os irmãos que conhecia em quatro categorias. Na primeira, colocava os que, não tomando parte activa nem nos problemas da loja nem nos problemas humanos, se ocupavam exlusivamente a aprofundar os mistérios da Ordem, a tríplice chamada de Deus, os três princípios de todas as coisas: o enxofre, o mercúrio e o sal -, o significado do quadrado e das figuras do templo de Salomão. Pedro sentia uma grande respeito por esta categoria de irmãos, que incluía os mais velhos, entre os quais pensava que estivesse José Alexeievitch, mas não partilhava das suas preocupações. O lado místico da franco-maçonaria não o atraía.

Na segunda categoria, incluía a sua pessoa e os que, como ele, procuravam, hesitavam e que, sem terem ainda encontrado o verdadeiro caminho da franco-maçonaria, esperavam atingi-lo um dia.

A terceira categoria, a mais numerosa delas todas, incluía os que só viam na seita determinadas formas exteriores e cerimónias e agarravam ao rigoroso cumprimento dos seus ritos, sem se preocuparem com o seu conteúdo ou com o seu significado oculto. Assim eram Vilarski e o próprio grão-mestre da loja principal.

O quarto grupo compreendia também um número muito considerável de irmãos, principalmente os novos iniciados. Como Pedro havia observado, eram pessoas que, não crendo em nada, nada desejando, tinham entrado apenas para conhecerem irmãos jovens, ricos e poderosos, quer pelas relações sociais, quer por nascimento, e que eram tão numerosos na Ordem.

terça-feira, 6 de julho de 2021

Guerra e Paz

Imaginemos dois homens dispostos a bater-se em duelo à espada de acordo com todas as regras da esgrima. O duelo dura muito tempo. De súbito, um deles, ao sentir-se ferido e ao compreender que se não trata de uma brincadeira, pois é a sua própria vida que está em risco, joga fora a espada e, deitando a mão ao primeiro cacete que lhe aparece, põe-se a lutar com ele. Suponhamos porém que esse duelista que com tanta oportunidade empregou o melhor meio e o mais simples para conseguir os seus fins, animado pela tradição cavalheiresca, procura ocultar a verdade e insiste em dizer que venceu o seu rival com todas as regras. É fácil ver a confusão que causaria um relato deste duelo.

O duelista que exige que o combate decorra de acordo com todas as regras do duelo é o francês; o adversário que jogou fora a espada e sacou do cacete é o russo; as pessoas que tentam explicar tudo segundo as regras da esgrima são os historiadores.

Três mortes

 No peito do doente começou a borbulhar qualquer coisa, e uma tosse violenta e seca, sem expectoração, fê-lo dobrar-se e engasgar-se.

- De que é que ele precisa agora? - metralhou de repente a cozinheira em voz alta e fina. - Faz dois meses que não sai lá de cima, tosse tanto que parece que se rasga, até a mim me dói tudo cá por dentro quando o oiço. As botas para quê, para que é que ele as quer? Não o vão enterrar com botas novas. Já há muito que devia ter ido, Deus me perdoe o meu pecado. Irra, parece que arrebenta com a tosse. Se calhar devíamos levá-lo para outra isbá, ou para outro sítio qualquer, sei lá... Na cidade há hospícios para isto. Isto assim está certo? Ocupar o lugar todo e não sair de lá? Vivemos aqui neste aperto... E depois ainda querem que haja asseio.

sábado, 28 de junho de 2008

Anna Karénina

Todas as famílias felizes se parecem umas com as outras, cada família infeliz é infeliz à sua maneira.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Anna Karénina

Lévin notava muitas vezes durante as discussões entre os homens mais inteligentes que depois de enormes esforços, de uma grande quantidade de subtilezas lógicas e de palavras, os oponentes chegavam por fim à consciência de que aquilo por que tão longamente haviam lutado para demonstrar um ao outro era conhecido de ambos desde há muito tempo, desde o início da discussão, mas que eles gostavam de coisas diferentes e por isso não queriam dizer aquilo de que gostavam, para não serem contestados. Notara frequentemente que por vezes durante uma discussão se compreende aquilo de que o adversário gosta, e de repente se gosta da mesma coisa e se concorda de imediato, e então todos os argumentos caem como desnecessários; e outras vezes sentia o contrário: a pessoa diz finalmente aquilo de que gosta e por que razão apresenta argumentos e se acontece que o diz bem e com sinceridade, então de repente o adversário concorda e pára de discutir. Era isso mesmo que ele queria dizer.

domingo, 6 de janeiro de 2008

A Morte de Ivan Ilich

O exemplo de silogismo que lá ensinavam na lógica: «Caio é homem, os homens são mortais, logo Caio é mortal» sempre lhe parecera muito correcto em relação a Caio, mas incorrectíssimo em relação a si mesmo. Tratava-se de Caio, do homem em geral, e assim muito bem. Mas ele não era Caio, não era homem em geral; ao contrário, fora sempre um ser distinto dos mais: tinha sido Vania com a mamã e o papá, com Mitia e Valodia, com os brinquedos e o cocheiro, com as amas e depois com Katenka, com todos os entusiasmos, alegrias e sofrimentos de infância, da adolescência e da juventude. Terá porventura Caio sentido no nariz aquele cheiro que tinha a bola de couro e de que Vania tanto gostava? Tinha Caio beijado alguma vez a mão de sua mãe e o frufru de seda das pregas do vestido tinha impressionado os ouvidos de Caio como impressionava os seus? E fora Caio porventura quem armava zaragata na Faculdade de Direito por causa de certos pastéis? Apaixonara-se Caio como ele se tinha apaixonado? Poderia Caio ocupar a presidência em certa reunião como ele fizera?