Um só olhar para os ouvintes dos concertos basta para mostrar como é impossível utilizar para fins políticos e filosóficos uma música que produz aqueles efeitos. Vemos filas inteiras de pessoas transportadas para um estado peculiar de inebriamento, completamente passivas, imersas em si próprias e, ao que parece, gravemente intoxicadas. O olhar parado, arregalado, mostra que essas pessoas estão irresistível e irremediavelmente entregues às suas reacções emocionais descontroladas. O suor a escorrer revela a exaustão provocada por aqueles excessos. O pior filme de gangsters trata os seus ouvintes mais como seres pensantes.
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quarta-feira, 23 de maio de 2012
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009
Antígona (1952)
A memória da humanidade para os sofrimentos passados é surpreendentemente curta. A sua imaginação para os possíveis sofrimentos futuros é ainda menor.
É esta insensibilidade que temos que combater.
Pois a humanidade é ameaçada por guerras, que não têm em conta as experiências anteriores. E essas guerras terão lugar se àqueles que as preparam publicamente não lhes forem cortadas as mãos.
sábado, 18 de outubro de 2008
Pequeno Organon
Quando se diz que o teatro é originário das cerimónias de culto, afirma-se, sem mais, que é saindo delas que ele se tornou teatro; ele não mais retomou a função religiosa dos mistérios, mas pura e simplesmente o prazer que nele encontravam os homens.
quarta-feira, 30 de julho de 2008
O Teatro Épico
Não mais era permitido ao espectador que, de boa fé, se identificasse com as personagens e de abandonasse acrítica e apaticamente às emoções (das quais não retirava nenhuma consequência de ordem prática). A representação submetia os sujeitos e os procedimentos a um processo de distanciamento. O distanciamento era indispensável para que a peça fosse compreendida. O indiscutível renuncia facilmente e sobretudo ao entendimento.
segunda-feira, 28 de julho de 2008
O Teatro Épico
O espectador do teatro dramático diz: Sim, também eu já senti isso - É assim que eu sou - É uma coisa bastante natural - E será sempre assim - O sofrimento deste indivíduo comove-me porque para ele não há saída - Esta arte é sublime: tudo aqui é indiscutível - Choro com aquele que chora, e rio com o que ri.
O espectador do teatro épico diz: Nunca tinha pensado nisto - É insólito, quase inacreditável - Isto tem que acabar. O sofrimento deste indivíduo comove-me porque para ele poderia existir uma saída - Esta arte é sublime: nada aqui é indiscutível - Rio-me daquele que chora e choro pelo que ri.
domingo, 11 de maio de 2008
Tambores na Noite
MARIE
Está bêbedo. Não lhe pesa tanto.
KRAGLER
a quem Auguste, ao fundo, serve aguardente: Não lhe pesa tanto? Não tem carne, é feito de papel? Consola-te, irmão, diz: não é possível. Estás a ouvir, amigo da pinga, estás a ouvir o vento? Vamos, irmã prostituta, upa! Upa, upa, irmão vermelho! Digo-vos: não têm de esperar. O que vale um porco aos olhos do Senhor? Nada! Embebedem-se a valer, o porco não vale nada, e assim não sentem nada.
GLUBB
Porque é que estás a gritar?
KRAGLER
Quem é que paga aqui?! Quem é que põe a música a tocar? Sempre a tocar! Tenho aqui a mosca. Só preciso de aguardente, se tiver aguardente ela afoga-se! Podemos acabar com a tropa ou com Deus? Podemos acabar com o sofrimento e os sacrifícios que os próprios homens ensinaram ao diabo? Não podemos acabar com isso, mas podemos beber. Podes beber aguardente e dormir em cima das pedras. Aqueles que dormem, tomem nota, são recompensados da melhor maneira, vem no catecismo, têm de acreditar! Por isso é beber e fechar a porta e não deixar entrar o vento, que ele também tem frio, vá, ponham a tranca! Não deixem entrar os fantasmas. Eles estão cheios de frio.
Está bêbedo. Não lhe pesa tanto.
KRAGLER
a quem Auguste, ao fundo, serve aguardente: Não lhe pesa tanto? Não tem carne, é feito de papel? Consola-te, irmão, diz: não é possível. Estás a ouvir, amigo da pinga, estás a ouvir o vento? Vamos, irmã prostituta, upa! Upa, upa, irmão vermelho! Digo-vos: não têm de esperar. O que vale um porco aos olhos do Senhor? Nada! Embebedem-se a valer, o porco não vale nada, e assim não sentem nada.
GLUBB
Porque é que estás a gritar?
KRAGLER
Quem é que paga aqui?! Quem é que põe a música a tocar? Sempre a tocar! Tenho aqui a mosca. Só preciso de aguardente, se tiver aguardente ela afoga-se! Podemos acabar com a tropa ou com Deus? Podemos acabar com o sofrimento e os sacrifícios que os próprios homens ensinaram ao diabo? Não podemos acabar com isso, mas podemos beber. Podes beber aguardente e dormir em cima das pedras. Aqueles que dormem, tomem nota, são recompensados da melhor maneira, vem no catecismo, têm de acreditar! Por isso é beber e fechar a porta e não deixar entrar o vento, que ele também tem frio, vá, ponham a tranca! Não deixem entrar os fantasmas. Eles estão cheios de frio.
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