Mostrar mensagens com a etiqueta Miguel Torga. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Miguel Torga. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 9 de junho de 2021

Diário

Vila Nova, 7 de Novembro de 1934


Acabou hoje tudo. Como sempre, fiquei derrotado. Quando já não era possível ter ilusões, agarrava-me a uma ilusão ainda maior e... esperava. É coisa que nunca pude destruir em mim: a ideia de que um ser, desde que nasce, fica logo com direito (e obrigação) de viver os sessenta anos da média. Pelo menos os sessenta anos da média.

Muitas vezes me aconteceu ir a férias e assistir a uma sementeira de meu Pai. Depois, ver o milhão ou o linho a despontar. E, embora sabendo que aquelas vidas eram efémeras, voltar à leira nas férias seguintes e ficar desolado ao ver lá, em vez de linho ou milhão, um batatal espesso. E dizer a meu Pai: «— Então o linho que havia aqui? — Colheu-se em Agosto, filho.» Em Agosto, realmente, o linho amadurece. Nos curtos meses que a natureza
determina, tira ao sol o mais calor que pode e enche-se dele. Depois dá sinais de cansaço, e morre. Mas este pequenito ainda não tinha bebido nenhum sol. Ainda estava na primeira semana. Nem o caule sobriamente fibroso, nem a flor azul e delicada, nem a semente parda e madura. E foi por tudo isto que, ao chegar
ao quarto, tive a sensação mais dolorosa da minha vida. Ali estava, ainda não substituído por cevada ou centeio, mas prestes. A mãe lavada em pranto. E ele, muito branco, muito discreto, voltado para a parede, a renegar de costas os remédios inúteis espalhados pela mesa-de-cabeceira.
Um médico nem sequer pode chorar. Só pode pegar no bracito magro e morno, apertar a artéria inerte e ficar uns segundos a trincar os dentes. Depois sair sem dizer nada. Quem saberá por aí uma palavra para estes momentos? Uma palavra para um médico dizer a esta mãe, que entregou à vida um filho vivo e recebeu da vida um filho morto.

sexta-feira, 19 de março de 2021

Diário

Coimbra, 29 de Julho de 1942

Cada vez mais doente e mais só, a lutar contra este Portugal como um insecto contra a parede do frasco onde foi encerrado. Encho-me de coragem, faço das tripas coração, e subo um centímetro pelo muro acima. Mas escorrego e caio. Não há esforço nem garras que vençam isto. O frasco é de vidro grosso, e absolutamente liso.

quarta-feira, 22 de março de 2017

Sísifo

Recomeça....

Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças...

sábado, 8 de setembro de 2007

Universalidade

Aqui declaro que não tem fronteiras.
Filho da sua pátria e do seu povo,
A mensagem que traz é um grito novo,
Um metro de medir coisas inteiras.

Redonda e quente como um grande abraço
De pólo a pólo, a sua humanidade,
Tendo raízes e localidade,
É um sonho aberto que fugiu do laço:

Vento da primavera que semeia
Nas montanhas, nos campos e na areia
A mesma lúdica semente,

Se parasse de medo no caminho,
Também parava a vela do moinho
Que mói depois o pão de toda a gente.

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Exortação - Para começar um novo ano

Em nome do teu nome,
Que é viril,
E leal,
E limpo, na concisa brevidade
— Homem, lembra-te bem!
Sê viril,
E leal,
E limpo, na concisa condição.
Traz à compreensão
Todos os sentimentos recalcados
De que te sentes dono envergonhado;
Leva, dourado,
O sol da consciência
As íntimas funduras do teu ser,
Onde moram
Esses monstros que temes enfrentar.
Os leões da caverna só devoram
Quem os ouve rugir e se recusa a entrar.

quarta-feira, 4 de abril de 2007

Diários

Coimbra, 5 de Outubro de 1938

Há quase um mês que não escrevo este diário. Para quê escrever todos os dias a palavra solidão?

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007

Miguel Torga

Vila Nova, 3 de Dezembro de 1935

Morreu Fernando Pessoa. Mal acabei de ler a notícia no jornal, fechei a porta do consultório e meti-me pelos montes a cabo. Fui chorar com os pinheiros e com as fragas a morte do nosso maior poeta de hoje, que Portugal viu passar num caixão para a eternidade sem ao menos perguntar quem era.