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segunda-feira, 27 de novembro de 2023

Poemas canhotos

 o António Ramos Rosa estava deitado na cama contra a parede 

e deu meia volta sobre si mesmo 

e ficou de cara voltada contra a parede 

e fechou os olhos 

e fechou a boca

e ficou todo fechado 

e então morreu todo 

fundo e completo de uma só vez 

e apenas ele no tempo e no espaço 

e só agora passado ano e meio eu compreendo 

como era preciso ser assim tão íntimo para sempre 

tão compacto 

mais que o mundo inteiro

 – e ele sou eu

domingo, 12 de outubro de 2008

Photomaton & Vox

E uma noite começo a escrever. Tenho uma memória. Nada foi esquecido, vem adequado agora aos vindicativos sentidos da expressão e da representação. E assim caminho para o esgotamento, no centro da fecundidade. As pessoas perdem o nome, as coisas limpam-se, cessam a fuga do espaço e o movimento dispersivodo tempo. Fica um núcleo cerrado. Fico eu.

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Os Passos em Volta

- O barulho do mar e do vento. A montanha, a ideia da montanha impraticável. E depois a terra arenosa por ali fora. E a solidão. E sentir sobretudo que já não pode haver medo. Fecho as portas da casa, a porta de saída e as portas dos quartos entre si. E fico no quarto sem soalho e deito-me no chão. Ouço o mar e o vento à frente e atrás da montanha solitária e poderosa. Depois encosto a cara à terra profundíssima para escutar o seu húmido susurro atravessando-a toda e passando por mim. E então poderei morrer.

quinta-feira, 8 de março de 2007

Os Passos Em Volta

Hoje, nada sei de quem me amou ou ama. Nada me reparte no tempo. Abro-me à unidade da vida - e amo o passado e o futuro com um só fervor: completo. A geografia não existe. Quem está em Joanesburgo e me ama ou possui um breve poema rabiscado nas costas de um envelope, ou quem me odeia em Roterdão e apenas tem algumas palavras sem destinatário, nada puderá supor da minha lenta maturidade. Esses papéis pouco valem, e esses sentimentos (de amor e ódio). Vale quem sou. Ultrapasso as palavras escritas aos trinta anos. O poema que agora escrevesse diria como estou pronto para morrer, referiria enfim a excelência do meu corpo urdido nas aventuras da solidão e da comunhão, e falaria de tudo quanto auxilia um homem no seu ofício - a ferocidade dos outros, o apartamento, ou o seu amor que, ferido pela ignorância, se inclina para ele, para o seu trabalho, o desejo, a expectativa. Morrerei como se fosse numa retrete de Paris - só, com a minha visão, o pressentido segredo das coisas.

E é na morte de um poeta que se principia a ver que o mundo é eterno.