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sexta-feira, 9 de abril de 2021
sexta-feira, 20 de dezembro de 2013
Os Cus de Judas
Passámos vinte e sete meses juntos nos cus
de judas, vinte e sete meses de angústia e de morte juntos nos cus de
judas, nas areias do Leste, nas picadas dos Quiocos e nos girassóis do
Cassanje, comemos a mesma saudade, a mesma merda, o mesmo medo, e
separámo-nos em cinco minutos, um aperto de mão, uma palmada nas costas,
um vago abraço, e eis que as pessoas desaparecem, vergadas ao peso da
bagagem, pela porta de armas, evaporadas no redemoinho civil da cidade.
segunda-feira, 16 de setembro de 2013
Os cus de Judas
O que os outros exigem de nós, entende, é que os não
ponhamos em causa, não sacudamos as suas vidas miniaturais calafetadas
contra o desespero e a esperança, não quebremos os seus aquários de
peixes surdos a flutuarem na água limosa do dia-a-dia, aclarada de viés
pela lâmpada sonolenta do que chamamos virtude e que consiste apenas, se
observada de perto, na ausência morna de ambições.
quinta-feira, 5 de setembro de 2013
Os cus de Judas
Talvez que a guerra tenha ajudado a fazer de mim o que sou hoje e que
intimamente recuso: um solteirão melancólico a quem não se telefona e cujo
telefonema ninguém espera, tossindo de tempos a tempos para se imaginar
acompanhado, e que a mulher a dias acabará por encontrar sentado na cadeira de
baloiço em camisola interior, de boca aberta, roçando os dedos roxos no pêlo
cor-de-novembro da alcatifa.
segunda-feira, 2 de setembro de 2013
Os cus de Judas
A cada ferido de emboscada ou de mina a
mesma pergunta aflita me ocorria, a mim, filho da Mocidade Portuguesa,
das Novidades e do Debate, sobrinho de catequistas e íntimo da Sagrada
Família que nos visitava a domicílio numa redoma de vidro, empurrado
para aquele espanto de pólvora numa imensa surpresa: são os
guerrilheiros ou Lisboa que nos assassinam, Lisboa, os americanos, os
russos, os chineses, o caralho da puta que os pariu combinados para nos
foderem os cornos em nome de interesses que me escapam, quem me enfiou
sem aviso neste cu de Judas de pó vermelho e areia, a jogar as damas com
o capitão idoso saído de sargento que cheirava a menopausa de
escrituário resignado e sofria do azedume crónico da colite, quem me
decifra o absurdo disto, as cartas que recebo e me falam de um mundo que
a lonjura tornou estrangeiro e irreal, os calendários que risco de
cruzes a contar os dias que me separam do regresso e apenas achando à
minha frente um túnel infindável de meses onde me precipito mugindo, boi
ferido que não entendo, que não logra entender e acaba por enterrar o
triste focinho molhado nos ossos de frango com esparguete do rancho, do
mesmo modo, percebe, que aqui na sua companhia, me sinto cavalo de
narinas enfiadas na alcofa de vodka, mastigando o feno azedo do limão.
sábado, 23 de junho de 2012
Boa tarde às coisas aqui em baixo
e esquecias-me, conforme digo sempre aos mais novos
palavra de honra que por não ter quem me aconselhasse aprendi à minha custa, a gente começa inocentes e à pala da inocência leva cada bofetada da vida que até andamos de lado uma vez que quem se mete nisto com delicadeza e bons modos cedo ou tarde
mais cedo que tarde
recebe um coice no focinho e a única solução é encomendar o enterro, conforme digo sempre, na minha vontade de ajudar
terça-feira, 24 de agosto de 2010
De livros e editores
A cabeça de um escritor é um sítio inabitável, cheio de sombras negras que se devoram umas às outras, remorsos, fantasmas, dores, insignificâncias em que não reparamos e ele repara, sensações, luzes, criaturas sem nexo. Usam o papel para ordenar este caos, vertebrar o desespero, dar ao ilógico uma coerência lógica e mostrar o nosso retrato autêntico em cacos de espelho, fundos de poço trémulos, superfícies convexas em que temos de emagrecer por nossa conta. Não se pode estender a mão a quem lê, tem de se caminhar sozinho num nevoeiro aparente em que, a pouco e pouco, as coisas se arrumam nos seus lugares. Em nenhum bom livro há personagens e história: quando muito aparência de personagens e história, usadas para tornar mais clara a vertigem do que somos. Tudo se passa no interior do interior e portanto não devia haver cursos de escrita criativa
(um paradoxo nos termos)
mas de leitura criativa. Conheço menos bons escritores do que bons leitores, um bom leitor é uma espécie muito rara. Um autor do século dezanove dedicava os seus trabalhos aos felizes poucos, expressão roubada a Shakespeare
(we few, we happy few, we band of brothers)
capazes de nadarem ao seu lado em águas muito escuras e de regressarem à tona de mãos cheias. Um livro é mais uma orelha que uma voz onde, no fim de contas, é o bom leitor quem conversa. O livro escuta. As páginas são ouvidos pacientes que nos guiam através da liberdade do silêncio, onde as nossas frases se reflectem e regressam com um sentido novo. O bom leitor só recebe na medida em que dá e a qualidade da obra depende desta troca constante, do fluxo e refluxo das emoções partilhadas. Temos de ser um agente activo do livro, fazê-lo nosso até que se torne, como queria Rilke de quem não sou admirador, excepto em raras passagens das Elegias, sangue, olhar e gesto. Se não for assim é uma comédia de enganos, um passatempo inócuo como quase tudo o que em Portugal se impinge, porque a maior parte dos editores ou são ignorantes ou são vigaristas, oferecendo ao público pacotilha impressa: um bom editor, tal como um bom leitor, é mais raro que um bom livro. Uma editora comercialmente bem sucedida é má, ou então tem de fazer compromissos. A casa alemã onde estou, por exemplo, possui um catálogo honesto, dividido em duas partes, literatura e best-sellers. O argumento temos de pôr as pessoas a ler é idiota: o que temos é de ensinar as pessoas a ler. Até Lenine compreendia isto, ao afirmar que a arte não tem de descer ao povo, é o povo que tem de subir à arte. Claro que não é apenas um problema português, é um problema universal. Pasmo com as listas dos tops:
ficção, dizem elas, quando a ficção não existe a não ser nas obras rasteiras. Se me dissessem que escrevia ficção sentia-me insultado: ficção que tolice, é o mundo inteiro que a gente mete entre as capas de um livro.
Vende menos? Decerto, mas há-de vender sempre. Se tivermos lado a lado, à nossa frente, Camões e o jornal, a tendência imediata é pegar no jornal, mas o jornal desaparece amanhã e Camões fica. Chamo jornalismo, explicava Gide, ao que é menos interessante amanhã do que hoje. E depois a Arte não é um desporto de competição: o editor que ponha numa cinta, por exemplo, cem mil exemplares vendidos, ou julga falar de sabonetes ou não é um editor. Se o livro for bom há-de vender muito mais do que isso: quanto terá vendido Ovídio até hoje? É apenas uma questão de tempo, porque os bons leitores existirão sempre, ainda que poucos. O que me aborrece na Arte são os comerciantes que giram em volta dela, sem lhe tocar, porque tiram o seu alimento do efémero. Faz pouco comecei uma biblioteca na empresa onde estou.
Tolstoi foi o primeiro: ao receber o livro impresso reparei que as últimas três páginas eram propaganda a lixo. Como se pode, no fim de um livro de Tolstoi, fazer aquilo? Desonestidade? Ignorância? Não faço ideia de quem é o responsável mas devia ter sido fuzilado no berço: Tolstoi de mistura com livros de cozinha e ficções. Recomecei a colecção: até agora não repetiram a indignidade. Pergunta:
Como vão os livros da biblioteca?
Resposta:
Pingam
e ainda bem que pingam. Se vendessem às grosas é que eu ficava alarmado. Os bons livros são para pingar eternidade fora: o Mondego começa gota a gota; a água suja basta virar o balde e encharca-nos. A água do balde acaba logo. O Mondego não tem princípio nem fim.
Pingam:
e que maravilha pingarem. À força de pingarem hão-de engrossar irrestivelmente, enquanto os baldes se enferrujam, amolgados, num canto do jardim.
E o que interessa
(volto à Gide)
o amanhã? A gente vive no hoje, pá, o Horácio que se dane. Que se dane a Coroa, o que vale a pena são as coroas e essas já cá cantam. O problema é que, se alguma nova editora aborda a minha agência, não começa por falar em dinheiro: fala nos nomes do catálogo. Todos eles pingam. Mas dão prestígio a uma Casa. Respeito demasiado o meu trabalho para o deixar à venda numa loja dos trezentos.
(um paradoxo nos termos)
mas de leitura criativa. Conheço menos bons escritores do que bons leitores, um bom leitor é uma espécie muito rara. Um autor do século dezanove dedicava os seus trabalhos aos felizes poucos, expressão roubada a Shakespeare
(we few, we happy few, we band of brothers)
capazes de nadarem ao seu lado em águas muito escuras e de regressarem à tona de mãos cheias. Um livro é mais uma orelha que uma voz onde, no fim de contas, é o bom leitor quem conversa. O livro escuta. As páginas são ouvidos pacientes que nos guiam através da liberdade do silêncio, onde as nossas frases se reflectem e regressam com um sentido novo. O bom leitor só recebe na medida em que dá e a qualidade da obra depende desta troca constante, do fluxo e refluxo das emoções partilhadas. Temos de ser um agente activo do livro, fazê-lo nosso até que se torne, como queria Rilke de quem não sou admirador, excepto em raras passagens das Elegias, sangue, olhar e gesto. Se não for assim é uma comédia de enganos, um passatempo inócuo como quase tudo o que em Portugal se impinge, porque a maior parte dos editores ou são ignorantes ou são vigaristas, oferecendo ao público pacotilha impressa: um bom editor, tal como um bom leitor, é mais raro que um bom livro. Uma editora comercialmente bem sucedida é má, ou então tem de fazer compromissos. A casa alemã onde estou, por exemplo, possui um catálogo honesto, dividido em duas partes, literatura e best-sellers. O argumento temos de pôr as pessoas a ler é idiota: o que temos é de ensinar as pessoas a ler. Até Lenine compreendia isto, ao afirmar que a arte não tem de descer ao povo, é o povo que tem de subir à arte. Claro que não é apenas um problema português, é um problema universal. Pasmo com as listas dos tops:
ficção, dizem elas, quando a ficção não existe a não ser nas obras rasteiras. Se me dissessem que escrevia ficção sentia-me insultado: ficção que tolice, é o mundo inteiro que a gente mete entre as capas de um livro.
Vende menos? Decerto, mas há-de vender sempre. Se tivermos lado a lado, à nossa frente, Camões e o jornal, a tendência imediata é pegar no jornal, mas o jornal desaparece amanhã e Camões fica. Chamo jornalismo, explicava Gide, ao que é menos interessante amanhã do que hoje. E depois a Arte não é um desporto de competição: o editor que ponha numa cinta, por exemplo, cem mil exemplares vendidos, ou julga falar de sabonetes ou não é um editor. Se o livro for bom há-de vender muito mais do que isso: quanto terá vendido Ovídio até hoje? É apenas uma questão de tempo, porque os bons leitores existirão sempre, ainda que poucos. O que me aborrece na Arte são os comerciantes que giram em volta dela, sem lhe tocar, porque tiram o seu alimento do efémero. Faz pouco comecei uma biblioteca na empresa onde estou.
Tolstoi foi o primeiro: ao receber o livro impresso reparei que as últimas três páginas eram propaganda a lixo. Como se pode, no fim de um livro de Tolstoi, fazer aquilo? Desonestidade? Ignorância? Não faço ideia de quem é o responsável mas devia ter sido fuzilado no berço: Tolstoi de mistura com livros de cozinha e ficções. Recomecei a colecção: até agora não repetiram a indignidade. Pergunta:
Como vão os livros da biblioteca?
Resposta:
Pingam
e ainda bem que pingam. Se vendessem às grosas é que eu ficava alarmado. Os bons livros são para pingar eternidade fora: o Mondego começa gota a gota; a água suja basta virar o balde e encharca-nos. A água do balde acaba logo. O Mondego não tem princípio nem fim.
Pingam:
e que maravilha pingarem. À força de pingarem hão-de engrossar irrestivelmente, enquanto os baldes se enferrujam, amolgados, num canto do jardim.
E o que interessa
(volto à Gide)
o amanhã? A gente vive no hoje, pá, o Horácio que se dane. Que se dane a Coroa, o que vale a pena são as coroas e essas já cá cantam. O problema é que, se alguma nova editora aborda a minha agência, não começa por falar em dinheiro: fala nos nomes do catálogo. Todos eles pingam. Mas dão prestígio a uma Casa. Respeito demasiado o meu trabalho para o deixar à venda numa loja dos trezentos.
segunda-feira, 27 de outubro de 2008
Visão, nº816
Gonçalo M. Tavares
É muito importante. O tempo está ligado ao dinheiro. Quando me deram o Prémio Portugal Telecom, perguntaram-me o que é que ia fazer com o dinheiro. Eu respondi que ia comprar tempo.
António Lobo Antunes
Devia ter dito que ia comprar um bolo económico e um carcaça. Ninguém pergunta a um banqueiro o que é que ele faz ao dinheiro, mas perguntam-no a um escritor como se nós fôssemos mendigos. Parece uma tia minha que, quando dava uma esmola, dizia: «Agora não gaste tudo em vinho.»
Gonçalo M. Tavares
Uma pessoa é convidada para falar meia hora e, em Portugal, isto é visto como se não valesse nada. Há uma desvalorização da palavra. E sobretudo da palavra oral.
António Lobo Antunes
Na Alemanha, isto tudo é pago. Aqui, à excepção dos amigos, não falo de borla para ninguém. Nem pensar. E a quantidade de vezes que me pedem para «escrever qualquer coisa»? Escreva aí qualquer coisa, umas palavrinhas para um livro meu, umas palavrinhas para aqui e para acolá.
Gonçalo M. Tavares
É engraçado isso de escrever num instante. Vamos imaginar que se escreve um texto em 20 minutos, A questão é que não são apenas aqueles 20 minutos, a questão é: e quem é que paga os 40 anos que a pessoa esteve a ler?
Referências:
António Lobo Antunes,
Gonçalo M. Tavares
Visão, nº816
António Lobo Antunes
Lembro-me de falar à editora de um rapaz com uma grande margem de progressão, que era o que me interessava. Percebe-se que trabalha... Quem quer escrever, tem que escrever todos os dias. Porque este é um trabalho de disciplina. Claro que existe o talento. O Gabriel Garcia Marquez, que é um grande narrador, dizia que o talento é como um berlinde na mão; ou se tem ou não se tem. Estava na América quando morreu o Paul Newman e, numa entrevista de arquivo, ouvi-o falar das pessoas que tinham talento natural e não trabalhavam.
Gonçalo M. Tavares
A mim irrita-me o desperdício de tempo. Às vezes, apetece-me bater em algumas pessoas que tiveram a possibilidade de ler e não leram.
Referências:
António Lobo Antunes,
Gonçalo M. Tavares
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