Mostrar mensagens com a etiqueta Franz Kafka. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Franz Kafka. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Diários



A palavra, não a vejo, invento-a.

domingo, 13 de novembro de 2011

O Castelo

«Não tinhas aprendido em tempos o ofício de alfaiate?» perguntou a estalajadeira. «Não, nunca», disse K. «O que és tu afinal?» «Agrimensor.» «Isso o que é?» K. explicou, a explicação fez a estalajadeira bocejar. «Não estás a dizer a verdade. Porque não dizes a verdade?» «Tu também não dizes a verdade.» «Eu? Lá voltas tu com os teus desaforos. E se não digo a verdade, era a ti que havia de prestar contas? E em que não digo eu a verdade?» «Não és apenas estalajadeira como dás a entender.» «Vejam só, não paras de fazer novas descobertas. E o que sou eu então, para além de estalajadeira? As tuas insolências começam já a passar dos limites.» «Não sei. Vejo apenas que és estalajadeira e que além disso usas vestidos que uma estalajadeira não costuma usar e como aliás nunca vi aqui na aldeia ninguém usar.» «Ora bem, chegamos ao que interessa, não consegues ficar calado, talvez nem sejas descarado, és apenas como uma criança que sabe uma tolice qualquer e que ninguém consegue convencer a ficar em silêncio. Fala, então. O que têm estes vestidos de especial?» «Se eu disser, vais zangar-te.» «Não, hei-de rir, não serão mais do que tagarelices de criança. Como são então os vestidos?» «Já que queres saber, são vestidos de bom tecido, vestidos caros mas já fora de moda, muito cheios de pregas e folhos, muito remendados e coçados, e não são próprios para a tua idade, nem para a tua figura nem para a tua posição. Chamaram-me a atenção logo na primeira vez em que te vi aqui no vestíbulo há cerca de uma semana.» «É então assim que são. Fora de moda, muito cheios de pregas e folhos, e que mais era? E comos sabes tu tudo isso?» «Vejo. Para ver não precisamos de ser ensinados.» «Vês então sem ajuda. Não tens de perguntar a ninguém para saber o que está na moda. Ainda vou precisar de ti, é que eu tenho um fraco por vestidos bonitos. E o que dirás tu quando souberes que este armário está cheio de vestidos?» Abriu as portas de correr, os vestidos estavam cuidadosamente pendurados e alisados, ocupando o armário em toda a largura e profundidade, quase sem folga entre si, eram sobretudo em cores escuras, cinzentos, castanhos, pretos. «São os meus vestidos, todos eles fora de moda e muito cheios de pregas e folhos, como dizias. Mas são apenas aqueles que já não cabiam no meu quarto, lá em cima tenho ainda mais dois armários cheios, dois armários quase tão grandes como este. Surpreendido?» «Não, já esperava qualquer coisa assim, eu bem dizia, não és apenas estalajadeira, tens ainda outros planos.» «O que eu quero é apenas vestir-me bem, e tu és louco ou és uma criança ou és um homem mau e perigoso. Vai, agora vai!»

sábado, 29 de dezembro de 2007

1922

30 de Outubro
O sentimento de angústia absoluta.
O que é que te liga mais estreitamente a estes corpos nitidamente delimitados, falantes, com olhos cintilantes, do que a uma coisa qualquer, do que à caneta na tua mão? Advirá do facto de seres da mesma espécie? Mas tu não o és nada, eis aqui por que te fizeste esta pergunta.
A exacta delimitação dos corpos humanos é horrível.
O que há de singular, de indecifrável no facto de não soçobrar, no facto de ser guiado em silêncio. Isso conduz ao absurdo: «Eu, pela minha parte, estaria perdido há muito tempo.» Eu, pela minha parte.