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terça-feira, 23 de agosto de 2011

Os Anões

- Porque disseste aquilo sobre o Hamlet ontem à noite?
- Aquilo o quê?
- Sobre o Hamlet. Porque disseste aquilo. Porque dizes coisas daquelas? Sabias que são extremamente estupidas? Fizeste-me passar por um imbecil. Não percebes isso? Não compreendeste nada do Hamlet, Ginny. Não percebes isso? E ainda por cima apareces com o livro debaixo do braço. Porque fizeste isso, antes de mais nada? Para impressionar? Estás maluca? Achas que o Mark ia ficar impressionado? Se achas que sim, com o quê? O Mark estava era divertido. Mas eu não. Tu é que tens de decidir, no fundo é uma questão de pura escolha, uma escolha que tens de fazer, mas a questão, Ginny, é que, enquanto estivermos juntos, não te quero ter por aí a dizer coisas ridiculas sobre coisas de que não percebes nada. É uma coisa sem pés nem cabeça. Realmente, deixas-me com uma cara de perfeito imbecil. Eu não te tinha dito que por uns tempos deixasses de parte o Shakespeare? Não achavas que era para teu próprio bem? Tinha-te dito que estavas muito longe de começar a apreender as implicações do que ele escreve; e não só não ligas ao que digo como andas a carregar o livro por aí como qualquer colegial merdosa e te pões a debitar todas aquelas palermices. É bastante absurdo, mas é mais do que absurdo. É patético. E não é só patético, como é estupidamente parvo. Eu disse-te para o largares, disse-te que não eras capaz de dar qualquer opinião sobre ele, o que não é uma critica, porque não há duas pessoas em cem que sejam capazes de o fazer, disse-te quais eram as coisas que tinhas de estudar, de certeza que te dei uma ideia da complexidade de toda esta questão, cheguei até a pedir-te que estudasses, ao ponto de me poderes ensinar alguma coisa, graças aos teus estudos, de maneira a que eu tivesse um certo respeito pelas tuas capacidades e é assim que tu te comportas. Tens consciência que aquilo que disseste foi um aborto? Onde é que leste aquilo? Onde quer que tenhas lido, nem sequer assimilaste a ideia.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Os Anões

Nós temos, em vez de uma moral vulgar de Lineu - uma convenção sociorreligiosa assente no acordo dos homens para viverem em comum -, temos em vez disso o simples facto de que o homem é o seu próprio juiz involuntário, porque sendo capaz de escolhas ele está afinal obrigado a aceitar a responsabilidade das suas acções.

Os Anões

O mesmo se diga dos poetas. Esses eram culpados de uma deserção criminosa. Ele queria deixar bem vincado nela que o acto de escrever era o acto de se comprometer consigo próprio. Consequentemente, era uma questão moral. Os poetas que os rodeavam assinavam a sua própria sentença de morte cada vez que assinavam o seu nome. O trabalho deles não era tanto exprimirem-se a si próprios como criarem-se a si próprios. E tudo o que daí emanava era mentira. Cada poema que escreviam não era mais do que um peido póstumo.