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domingo, 15 de janeiro de 2012

Uma Viagem à India - Canto VI

58

Porque há gente que aparenta sabedoria
em festas públicas mas, quando só, é de imediato conquistada
por alvoroços vários. É, pois, no sossego individual
de uma pessoa individual e calma
(em pleno centro de Lisboa, por exemplo)
que começa o sossego da Europa. Não lhe parece?

domingo, 4 de dezembro de 2011

Uma Viagem à India - Canto VI

91

Bloom fora coerente.
Não se apressara demasiado a chegar à
Índia; a técnica e as máquinas são um engano:
tudo parece fácil, rápido, e os homens
apressam-se, esquecendo a biologia
que trazem e o modo orgânico como a própria sensatez cresce.
Bloom fora sensato. Em 2003 poderia demorar
menos de um dia a chegar à Índia, e demorou meses.
(Porém, nunca se tem idade suficiente para ir à Índia,
sempre existe, em qualquer europeu,
uma excessiva juventude.)

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Uma Viagem à Índia - Canto III

16

Claro que antigamente - continuou Bloom,
depois desta curta narrativa -
uma grande cidade era o sítio
onde viva um excelente filósofo,
agora uma grande cidade é aquela que tem muitos cidadãos
em idade de votar e, pelo menos, um edifício com 140 andares.
Se no meio dos 15 milhões existir um homem
que pensa: excelente, sim, é certo,
mas não é indispensável.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Uma Viagem à Índia - Canto I

63

E é evidente: conhecem-se os homens pelo que lêem
mas não só. Como matam - que armas usam -
e como se apaixonam - que palavras utilizam nas
declarações de amor. Ah, e ainda um pormenor: de quem
tens medo? E que nome dás à coisa grande que do céu
nunca chega a vir porque prefere manter-se assim,
possibilidade?
Se decifrares o último barulho que um moribundo faz,
descobrirás a sua religião, eis uma certeza.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Gonçalo M. Tavares

Procuro sempre uma linguagem limpa, quase bíblica. Se tenho duas palavras para uma descrição, opto sempre pela mais simples.

em Jornal de Letras

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Visão, nº816

Gonçalo M. Tavares
É muito importante. O tempo está ligado ao dinheiro. Quando me deram o Prémio Portugal Telecom, perguntaram-me o que é que ia fazer com o dinheiro. Eu respondi que ia comprar tempo.
António Lobo Antunes
Devia ter dito que ia comprar um bolo económico e um carcaça. Ninguém pergunta a um banqueiro o que é que ele faz ao dinheiro, mas perguntam-no a um escritor como se nós fôssemos mendigos. Parece uma tia minha que, quando dava uma esmola, dizia: «Agora não gaste tudo em vinho.»
Gonçalo M. Tavares
Uma pessoa é convidada para falar meia hora e, em Portugal, isto é visto como se não valesse nada. Há uma desvalorização da palavra. E sobretudo da palavra oral.
António Lobo Antunes
Na Alemanha, isto tudo é pago. Aqui, à excepção dos amigos, não falo de borla para ninguém. Nem pensar. E a quantidade de vezes que me pedem para «escrever qualquer coisa»? Escreva aí qualquer coisa, umas palavrinhas para um livro meu, umas palavrinhas para aqui e para acolá.
Gonçalo M. Tavares
É engraçado isso de escrever num instante. Vamos imaginar que se escreve um texto em 20 minutos, A questão é que não são apenas aqueles 20 minutos, a questão é: e quem é que paga os 40 anos que a pessoa esteve a ler?

Visão, nº816

António Lobo Antunes
Lembro-me de falar à editora de um rapaz com uma grande margem de progressão, que era o que me interessava. Percebe-se que trabalha... Quem quer escrever, tem que escrever todos os dias. Porque este é um trabalho de disciplina. Claro que existe o talento. O Gabriel Garcia Marquez, que é um grande narrador, dizia que o talento é como um berlinde na mão; ou se tem ou não se tem. Estava na América quando morreu o Paul Newman e, numa entrevista de arquivo, ouvi-o falar das pessoas que tinham talento natural e não trabalhavam.
Gonçalo M. Tavares
A mim irrita-me o desperdício de tempo. Às vezes, apetece-me bater em algumas pessoas que tiveram a possibilidade de ler e não leram.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Um Homem: Klaus Klump

Os conhecimentos ouvem-se, mas para agir a capacidade de audição é praticamente desprezável. Porque agir é estar próximo das coisas e ouvir é estar afastado das coisas. Alguém que apenas ouve nunca será considerado um intruso no mundo, a Natureza não se sentirá ameaçada. Quem ouve poderá acumular conhecimentos, mas essa acumulação não lutará com a Natureza. Esta resiste bem à inteligência, ao raciocínio e à memória do Homem: todas estas qualidades intelectuais são assuntos que dizem respeito exclusivamente ao mundo da cidade, e o que ameaça a Natureza são as acções: os momentos em que os humanos abandonam a audição, e mesmo a linguagem do discurso, e passam a querer falar com o sentido do tacto: o único que pode alterar as coisas. Se os homens, mantendo a sua inteligência incorrupta, fossem seres imóveis, incapazes de qualquer movimento, seriam ainda hoje menos poderosos do que um único metro quadrado de terra espontâneo. Poderiam possuir um grau de aperfeiçoamento no pensamento abstracto, matemático e lógico, mas não deixariam de ser uma espécie secundária ao lado das outras: as possuidoras de movimento. Qualquer cão mesquinho mijaria nas pernas de um homem altamente inteligente, mas imóvel. Se, de repente, numa hipótese totalmente absurda, todos os humanos sofressem um acidente como Clako, a espécie humana desapareceria rapidamente numa geração. Numa única geração desapareceriam, então, a matemática e a lógica do mundo. E a geometria. E a literatura.

quinta-feira, 13 de março de 2008

Jerusalem

Ela percebeu, claramente, que ali, junto à igraja, estavam em competição duas dores grandes: a dor que a ia matar, a dor má, assim ela a designou, e, do outro lado, a dor boa, a dor do apetite, dor da vontade de comer, dor que significava estar vivam a dor da existência, diria ela, como se o estômago fosse, naquele momento, ainda em plena noite, a evidente manifestação da humanidade, mas também das suas relações ambíguas com os mistérios de que nada se sabe. Estava viva e essa circunstância doía mais, naquele momento, de um modo objectivo e material, do que a dor de que ia morrer, agora secundária. Como se naquele momento fosse mais importante comer um pão do que ser imortal.

domingo, 9 de março de 2008

Os projécteis pesados

As únicas ilusões são sobre os mortos. Julgas que eles são melhores do que realmente são.
A vida é uma só - obter dinheiro ou reputação e filhos para justificar perante os outros o facto de não te atirares de um prédio abaixo - e a morte faz parte dos vivos, é a 2ª parte como nos filmes. Não penses que os mortos são anjos.

em água, cão, cavalo, cabeça

Las Muchachas Americanas

Não ponhas o coração à frente dos olhos porque assim não vês as coisas.

em água, cão, cavalo, cabeça

Desenho

É no cabo da faca de cozinha - que agora se encontra envolvida na actividade comum, quase mesquinha, de cortar um fruto ao meio - é no cabo da faca que se encontra a memória da casa. É um cofre, essa faca, e se há nela jóias elas são visões daquilo que há anos ocorreu: os mortos são, na cabeça dos vivos, mais felizes do que realmente foram.

em água, cão, cavalo, cabeça

terça-feira, 20 de março de 2007

Linguagem e política

Em termos de linguagem, o politicamente correcto é expresso pela frase de informação nula. Uma maneira imediata de desmontar a frase que nada acrescenta é colocá-la na negativa. Se alguém afirma: «o necessário é que o país se desenvolva», na verdade nada diz pois esta frase na negativa - «não é necessário que o país se desenvolva» - não é aceitável, nem subscrita por ninguém. Estamos pois perante frases que não são discutíveis, frases de que não podemos discordar. E uma frase só expressa um entendimento político real, uma posição, se podemo discordar dela. Popper, relembre-se, definia a ciência como aquilo que pode ser refutado; o irrefutável não é científico - e também não é político, acrescente-se.