Aliás, qual é o amigo, por muito caro que seja, em cujo passado, comum ao nosso, não haja daqueles minutos que acharíamos mais cómodo convencer-nos de que ele os terá esquecido?
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sábado, 28 de novembro de 2009
segunda-feira, 16 de novembro de 2009
O Lado de Guermantes
É verdade que dizemos que a hora da morte é incerta, mas quando dizemos isso imaginamos essa hora como situada num espaço vago e longínquo, não pensamos que ela tenha qualquer relação com o dia já começado e possa significar que a morte - ou a sua primeira tomada de posse de nós, após o que nunca mais nos largará - poderá acontecer nesta mesma tarde, tão pouco incerta, nesta tarde em que a ocupação de todas as horas está antecipadamente regulada. As pessoas insistem no sei passeio para terem dentro de um mês todo o bom ar de que necessitam, hesitaram na escolha de um casacão a levar, do cocheiro a chamar, vão de carro, têm o dia inteiro à sua frente, curto, porque querem regressar a tempo de receber uma amiga; desejam que amanhã também faça bom tempo; e não duvidam de que a morte que caminhava dentro delas noutro plano, no meio de uma impenetrável escuridão, escolheu precisamente aquele dia para entrar em cena, daí a alguns minutos, mais ou menos no momento em que o carro chegar aos Campos Elísios. Talvez aqueles que vivem habitualmente obsediados pelo pavor da singularidade própria da morte achem algo de tranquilizador nesse género de morte - nesse género de primeiro contacto com a morte -, porque aí ele reveste uma aparência conhecida, familiar, quotidiana. Foi precedida de um bom almoço e do memso passeio das pessoas de boa saúde.
quinta-feira, 9 de outubro de 2008
Sodoma e Gomorra
Albertine não me dava mais que a sua palavra, uma palavra peremptória e não apoiada em provas. Mas isso era justamente o que melhor me podia acalmar, pois o ciúme pertence àquela família de dúvidas mórbidas suprimidas muito mais pela energia de uma afirmação que pela sua verosimilhança. Aliás, é próprio do amor tornar-nos ao mesmo tempo mais desconfiados e mais crédulos, fazer-nos suspeitar da mulher amada mais depressa do que o faríamos de outra pessoa e acreditar mais facilmente nas suas negativas. É preciso amar para nos preocuparmos com o facto de não haver apenas mulheres honestas, o mesmo é dizer para darmos por isso, e é igualmente preciso amar para desejar que existam, isto é, para ter a certeza de que existem. É humano procurarmos a dor e logo depois livrarmo-nos dela. As propostas capazes de o conseguir parecem-nos facilmente verdadeiras, não se contesta muito um calmante que produz efeito. E, além disso, por muito múltipla que seja a criatura que amamos, pode sempre apresentar-nos duas personalidades essenciais, consoante nos aparece como nossa ou como dirigindo os seus desejos para outros lados que não para nós. A primeira dessas personalidades possui o poder especial de nos impedir de acreditar na realidade da segunda, possui o segredo específico para acalmar os sofrimentos que esta última causou. O ser amado é sucessivamente o mal e o remédio que suspende e agrava o mal.
segunda-feira, 18 de agosto de 2008
O Lado de Guermantes
Tornámos a atravessar a Avenida Gabriel, no meio da multidão dos transeuntes. Sentei a minha avó num banco e fui à procura de um fiacre. Ela estava agora fechada para mim, ela, em cujo coração eu me colocava sempre para julgar a pessoa mais insignificante, tornara-se uma parte do mundo exterior, e, mais do que a simples transeuntes, era obrigado a calar-lhe o que pensava do seu estado, a calar-lhe a minha inquietação. Não poderia ter com ela mais confiança para lhe falar disso do que com uma pessoa estranha. Acabava de me restituir os pensamentos, os desgostos que desde a infância eu lhe confiara para sempre. Não tinha morrido ainda. Mas eu já estava só. E até aquelas alusões que fizera aos Guermantes, a Molière, às nossas conversas acerca do pequeno núcleo, pareciam não ter base, não ter causa, pareciam fantásticas, porque saíam do nada desse mesmo ser que, talvez amanhã, deixaria de existir, para quem elas já não teriam qualquer sentido, desse nada - incapaz de as conceber - que a minha avó não tardaria a ser.
terça-feira, 8 de julho de 2008
O Lado de Guermantes
Quando chega o sono, acontece efectivamente que o que se teria feito durante o dia só em sonho se cumpre, isto é, depois da inflexão do adormecimento, seguindo uma via diferente da que teria seguido acordado. A mesma história muda de direcção e tem outro fim. Apesar de tudo, o mundo em que se vive durante o sono é tão diferente que aqueles que têm dificuldade em adormecer procuram acima de tudo sair do nosso. Depois de, durante horas, de olhos fechados, terem desesperadamente enrolado pensamentos semelhantes aos que teriam tido de olhos abertos, tornam a ganhar coragem se percebem que o minuto anterior esteve pejado de um raciocínio que contradiz formalmente as leis da lógica e a evidência do presente, significando essa curta «ausência» que está aberta a porta pela qual talvez possam escapar imediatamente da percepção do real, ir fazer uma paragem mais ou menos longe dele, o que lhes dará um sono mais ou menos «bom». Mas já está dado um grande passo quando se viram as costas ao real, quando se atingem os primeiros antros em que as «auto-sugestões» preparam, como bruxas, a infernal mistela das doenças imaginárias ou da recrudescência das doenças nervosas e ficam à espreita da hora em que as crises reanimadas durante o sono inconsciente irão desencadear-se com força suficiente para o fazer cessar.
sábado, 5 de janeiro de 2008
À Sombra das Raparigas em Flor
Mas, sobretudo, ao falar dos meus gostos que não mais mudariam, do que estava destinado a tornar a minha vida feliz, insinuava em mim duas suspeitas terrivelmente dolorosas. A primeira era de que a minha vida tinha já começado (quando todos os dias me considerava como que no limiar da minha vida ainda intacta, e que só começaria de manhã), mais ainda, que o que se ia seguir não seria muito diferente do antecedente. A segunda suspeita, que a bem dizer não passava de outra forma da primeira, era de que não estava situado fora do Tempo, antes sujeito às suas leis, tal como aquelas personagens do romance que, por causa disso, me lançavam em tal tristeza quando lia as suas vidas, em Combray, ao fundo da minha guarita de verga. Teoricamente sabe-se que a Terra gira, mas de facto não damos por isso, o chão que pisamos parece que não se mexe e vivemos tranquilos. É o que se passa com o tempo na vida. E, para tornar a sua fuga sensível, os romancistas são obrigados, acelerando loucamente as oscilações do pêndulo, a fazer o leitor saltar dez, vinte, trinta anos, em dois minutos. Deixámos no alto de uma página um amante em plena esperança, e ao fundo da seguinte tornamos a encontrá-lo octogenário, fazendo penosamente no pátio de um hospício o seu passeio quotidiano, mal respondendo às palavras que lhe diziam, esquecido do passado. Ao dizer a meu respeito: «Já não é uma criança, os seus gostos não vão mudar, etc.», o meu pai acabava de repente de me revelar a mim mesmo dentro do Tempo, e causava-me o mesmo género de tristeza de como se eu fosse, não ainda o asilado senil, mas um daqueles heróis de quem o autor, num tom indiferente que é particularmente cruel, nos diz no fim de um livro: «Sai cada vez menos do campo. Acabou por se fixar por lá definitivamente, etc.»
terça-feira, 30 de outubro de 2007
À Sombra das Raparigas em Flor
O Sr. Bloch pai, que só conhecia Bergotte de longe e da sua vida apenas o que ouvira da voz pública, tinha também um modo indirecto de se inteirar da sua obra por meio de juízos alheios de aparência literária. Esse senhor vivia no mundo do pouco mais ou menos, onde se saúda no vácuo e se julga em falso. E o curioso é que nestes casos a inexactidão e a incompetência não tiram segurança ao que se diz, antes pelo contrário.
domingo, 21 de outubro de 2007
À Sombra das Raparigas em Flor
E constantemente estamos a falar nos referidos defeitos, como se fora uma espécie de rodeio para falar em nós mesmos, em que se juntam o prazer de confessar e o de nos absolvermos. Aliás, parece que a nossa atenção, sempre atraída pelo que nos caracteriza, asinala-o nas outras pessoas mais que qualquer outra coisa. Sempre haverá um míope que diga de outro: «Mal pode abrir os olhos»; a certo doente do peito oferece dúvidas a integridade pulmonar do indivíduo mais forte; um homem pouco asseado não faz senão falar nos banhos que não tomam os outros; o que cheira mal sustenta que ali onde está há um cheiro que empesta; oamrido enganado vê por toda a parte maridos enganados, a mulheres levianas a mulher leviana, e snobs o snob. E passa-se com todos os vícios o mesmo que com todas as profissões, as quais exigem e desenvolvem determinado saber que se ostenta com gosto.
segunda-feira, 20 de agosto de 2007
Do lado de Swann
Mesmo do ponto de vista das coisas mais insignificantes da vida, nós não somos um todo materialmente constituído, idêntico para toda a gente e de quem cada um apenas tenha de tomar conhecimento, como de um caderno de encargos ou de um testamento; a nossa personalidade social é uma criação do pensamento dos outros.
quinta-feira, 10 de maio de 2007
Do Lado de Swann
Depois dessa crença central que, durante a minha leitura, executava incessantes movimentos de dentro para fora, para a descoberta da verdade, vinham as emoções que me eram dadas pela acção em que tomava parte, porque aquelas tardes eram mais cheias de acontecimentos dramáticos do que muitas vezes uma vida inteira. Eram os acontecimentos que surgiam no livro que estava a ler; é verdade que as personagens por eles afectadas não eram «reais», como dizia a Françoise. Mas todos os sentimentos que a alegria ou o infortúnio de uma personagem real nos fazem experimentar só acontecem em nós por intermédio de uma imagem dessa alegria ou desse infortúnio; o engenho do primeiro romancista consistiu em compreender que no aparelho das nossas emoções, como a imagem é o único elemento essencial, a simplificação que consistiria em suprimir pura e simplesmente as personagens reais seria um aperfeiçoamento decisivo. Um ser real, por muito profundamente que simpatizemos com ele, é em grande parte apreendido pelos nossos sentidos, o que quer dizer que permanece para nós opaco, que apresenta um peso morto que a nossa sensibilidade não pode levantar. Se é atingido por uma infelicidade, só numa pequena parte da noção total que ele tem de si é que ele mesmo poderá comover-se. O achado do romancista foi ter a ideia de substituir essas partes impenetráveis à alma por uma quantidade igual de partes imateriais, isto é, que a nossa alma pode assimilar a si mesma. Que importa então que as acções, que as emoções desses seres de uma nova espécie, nos surjam como verdadeiras, visto que as tornámos nossas, visto que é em nós que acontecem, que mantêm o seu domínio, enquanto viramos febrilmente as páginas do livro, a rapidez da nossa respiração e a intensidade do nosso olhar? E uma vez que o romancista nos pôs nesse estado, no qual, como em todos os estados puramente interiores, toda a emoção é decuplicada, estado em que o seu livro nos vai perturbar à maneira de um sonho, mas de um sonho mais claro que os que temos a dormir, e cuja lembrança irá durar mais tempo, então, eis que ele desencadeia em nós durante uma hora todas as felicidades e todas as infelicidades possíveis, algumas das quais levaríamos anos de vida a conhecer, e as mais intensas das quais nunca nos seriam reveladas, porque a lentidão com que se produzem nos retira a percepção delas (assim, na vida, o nosso coração muda, e essa é a pior dor; mas só na leitura, em imaginação, a conhecemos: na realidade ele muda, como certos fenómenos da natureza se produzem, com suficiente lentidão para que, se pudermos detectar sucessivamente cada um dos seus estados diferentes, em contrapartida nos seja poupada a própria sensação de mudança).
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