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segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Jornal de Letras

No fundo, o que eu quero ser, o que eu quero continuar a ser, é um escritor português, no sentido exacto que a palavra tem. Se os meus livros se tornam conhecidos lá fora, isso não me torna menos ligado àquilo que faço e àquilo que sou aqui. Gosto do que este país fez de mim: talvez seja isto que, no fundo, está nos meus romances.

Entrevista a 18 de Abril de 1989


domingo, 8 de novembro de 2009

Caim

Perguntou Isaac, Pai, que mal te fiz eu para teres querido matar-me, a mim que sou o teu único filho, Mal não me fizeste, isaac, Então por que quiseste cortar-me a garganta como se eu fosse um borrego, perguntou o moço, se não tivesse aparecido aquele homem para segurar-te o braço, que o senhor o cubra de bençãos, estarias agora a levar um cadáver para casa, A ideia foi do senhor, que queria tirar a prova, A prova de quê, Da minha fé, da minha obediência, E que senhor é esse que ordena a um pai que mate o seu próprio filho, É o senhor que temos, o senhor dos nossos antepassados, o senhor que já cá estava quando nascemos, E se esse senhor tivesse um filho, também o mandaria matar, perguntou isaac, O futuro o dirá, Então o senhor é capaz de tudo, do bom, do mau e do pior, Assim é, Se tu tivesses desobedecido à ordem, que sucederia, perguntou isaac, O costume do senhor é mandar a ruína ou uma doença a quem lhe falhou, Então o senhor é rancoroso, Acho que sim, respondeu abrãao em voz baixa, como se temesse ser ouvido, ao senhor nada é impossível.

Caim

O leitor leu bem, o senhor ordenou a abraão que lhe sacrificasse o próprio filho, com a maior simplicidade o fez, como quem pede um copo de água quando tem sede, o que significa que era costume seu, e muito arraigado. O lógico, o natural, o simplesmente humano seria que abrãao tivesse mandado o senhor à merda, mas não foi assim.

Caim

A eva e adão ainda restava a possibilidade de gerarem um filho para compensar a perda do assassinado, mas bem triste há-de ser a gente sem outra finalidade na vida que a de fazer filhos sem saber porquê nem para quê.

sábado, 20 de dezembro de 2008

A Viagem do Elefante

No fundo, há que reconhecer que a história não é apenas selectiva, é também discriminatória, só colhe da vida o que lhe interessa como material socialmente tido por histórico e despreza todo o resto, precisamente onde talvez poderia ser encontrada a verdadeira explicação dos factos, das coisas, da puta realidade. Em verdade vos direi, em verdade vos digo que vale mais ser romancista, ficcionista, mentiroso.

domingo, 30 de novembro de 2008

A Viagem do Elefante

Fez plof e sumiu-se. Há onomatopeias providenciais. Imagine-se que tínhamos de descrever o processo de sumição do sujeito com todos os pormenores. Seriam precisas, pelo menos, dez páginas. Plof.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

A Viagem do Elefante

Basta que recordemos a peremptória afirmação daquele famoso jesus de galileia que, nos seus melhores tempos, se gabou de ser capaz de destruir e reconstruir o templo entre a manhã e a noite de um único dia. Ignora-se se foi por falta de mão-de-obra ou de cimento que não o fez, ou se foi por ter chegado à sensata conclusão de que o trabalho não merecia a pena, considerando que se algo se vai destruir para construí-lo outra vez, melhor será deixar tudo como estava antes.

domingo, 12 de outubro de 2008

Revista Única - 11/10/08

Ainda não há muito tempo falava-se com frequência da formação de uma opinião pública poderosa capaz de intervir socialmente, algo que nos permitisse estar em paz com a nossa consciência, uma espécie de pacto de não agressão entre eu e mim mesmo... Dizer: conservo a minha independência de juízo, tenho uma opinião crítica. Estupendo, mas, para que serve isso?

terça-feira, 8 de maio de 2007

Memorial do Convento

Está longe daqui o fundo dos nosso sacos, um no Brasil outro na India, quando se esgotarem vamos sabê-lo com tão grande atraso que poderemos então dizer, afinal estávamos pobres e não sabíamos, Se vossa Majestade me perdoa o atrevimento, eu ousaria dizer que estamos pobres e sabemos, Mas, graças sejam dadas a Deus, o dinheiro não tem faltado, Pois não, e a minha experiência contabilística lembra-me todos os dias que o pior pobre é aquele a quem o dinheiro não falta, isso se passa em Portugal, que é um saco sem fundo, entra-lhe o dinheiro pela boca e sai-lhe pelo cu, com perdão de vossa majestade.

terça-feira, 27 de março de 2007

In Nomine Dei

GERTRUD VON UTRECHT

Abjuro da intolerância, abjuro dos males que pratiquei e permiti, abjuro de mim, quando culpada, e dos meus erros. Mas não abjurarei da minha crença, porque só a tenho a ela.
Sem uma crença, o ser humano é nada.

terça-feira, 13 de março de 2007

José Saramago

Os lares para a terceira idade e quarta idades, essas benfazejas instituições criadas em atenção à tranquilidade das famílias que não têm tempo nem paciência para limpar os ranhos, atender aos esfíncteres fatigados e levantar-se de noite para chegar a arrastadeira...

sábado, 3 de fevereiro de 2007

José Saramago

Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites,
manhãs e madrugadas em que não precisamos de
morrer.
Então sabemos tudo do que foi e será.
O mundo aparece explicado definitivamente e entra
em nós uma grande serenidade, e dizem-se as
palavras que a significam.
Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas
mãos.
Com doçura.
Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a
vontade e os limites.
Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o
orriso de quem se reconhece e viajou à roda do
mundo infatigável, porque mordeu a alma até aos
ossos dela.
Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres
como a água, a pedra e a raiz.
Cada um de nós é por enquanto a vida.
Isso nos baste.