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quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Quarteto

VALMONT
O que poderá ela ter aprendido no convento além dos jejuns e de um pouco de piedosa masturbação com o crucifixo. Passado o gelo das orações infantis, aposto em como ela arde por receber o golpe da misericórdia que porá fim à sua inocência. Lançar-se-à sobre a minha faca antes de eu a desembainhar. Não fará desvio nenhum: ignora os arrepios da caça. Que interessa a presa sem a volúpia da perseguição. Sem o suor do medo, sem a respiração ofegante, o olhar esgazeado. O resto é digestão. (...) Terei que me aplaudir a mim próprio. O tigre cabotino. Pode a plebe acavalar-se cheia de pressa, o seu tempo é caro, custa-nos dinheiro, a nossa sublime profissão é a de matar o tempo. Exige a nossa entrega total: há tempo a mais. Quem pudesse fazer parar e pôr de pé os relógios do mundo: a eternidade como erecção perpétua.

Heiner Muller sobre 'Quarteto'

Quando escrevo sobre um assunto, qualquer que seja, só me interesso pelo seu esqueleto. O que aqui me interessou foi separar a estrutura das relações entre so sexos, e as apresentar tal como me parecem verdadeiras, e destruir os «clichés», os recalcamentos. Mesmo que eu próprio viva de ilusões na minha vida sexual, é-me impossível não fazer entrar essas ilusões em linha de conta quando escrevo. O meu impulso fundamental no trabalho é a destruição. Partir o brinquedo dos outros. Acredito na necessidade dos impulsos negativos.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Quarteto

Quando fecho os olhos, sois belo, Valmont. Ou corcunda, se eu quiser. O privilégio dos cegos. Têm vantagens no amor. A comédia das circunsctâncias acessórias é-lhes poupada, vêem o que querem. O ideal seria ser cego e surdo mudo. O amor das pedras.