No fundo, eu acho que um actor é uma pessoa que tem como principal instrumento de trabalho a sua própria personalidade. Conforme a personalidade que o actor tem, assim é interessante ser visto por outros ou não. E eu penso muito nisso quando escolho as pessoas, ou quando me apaixono por determinadas pessoas enquanto actores. Se esta pessoa não tem qualquer espécie de interesse humano, como é que eu quero que depois tenha interesse humano no palco? Não vai ter nunca. A inteligência da pessoa conta, porque é ela que vai dar o produto num determinado personagem que construa. A sensibilidade, se é bonita, se é feia - é isso que o público vai ver. Portanto, a primeira coisa que para mim é importante é a personalidade da própria pessoa. A chamada “técnica de actor” é útil de aprender, mas vem depois, são utensílios de que a pessoa se pode servir. Mas o fundamental é a personalidade das pessoas. E é muito importante na personalidade a questão da generosidade, isto é, o gosto de se oferecer como personalidade às outras pessoas que a vão ver, de se dar, de se mostrar, nesse sentido. Não para as dominar, mas para se deixar ver. O espírito lúdico é também muito importante, o prazer de fazer de conta, alguma coisa que reste das pessoas de infantil. Porque, no fundo, representar é isso. É um prolongamento, em adulto, daquilo que normalmente os adultos castram em si próprios, que é a capacidade de brincar. As pessoas, quando são adultas, ficam muito sérias e convencidas da sua seriedade e deixam de brincar. Um actor tem que conservar essa capacidade sempre. É nisso que se baseia tudo. Todos os miúdos são actores. Esse era um dos exemplos que me davam na escola, permanentemente: “Olhem para as crianças. Que problema tem uma criança de fingir que está numa situação imaginária?” Não tem problema nenhum. No meu tempo eram os jogos dos cowboys e dos índios, ou jogarem aos pais e às mães, e actualmente há outras coisas, porque são influenciados pela televisão. Os miúdos entretêm-se e situam-se num mundo imaginário. Os adultos perdem esta capacidade.
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quarta-feira, 8 de outubro de 2008
segunda-feira, 19 de maio de 2008
Esta companhia
O teatro deve ser assim: uma coisa morta para lembrar a vida. E assim é, mesmo quando o não quer ser, mesmo quando pensa que de reminiscência da vida passa a seu retrato fiel, ou quando passa a outro pedaço de vida, com regras diferentes das que tem o quotidiano lá fora e assim obriga o público a nesse momento deixar de ser cidadão e a tornar-se actor também, sem lhe conferir a liberdade que o actor tem, e que lhe dá cidadania, de tomar a decisão de por umas horas deixar de ser gente e de escolher a maneira de o deixar, de escolher a sua companhia, o seu encenador, a sua peça, a sua maneira de representar.
O teatro é efectivamente sobretudo uma questão moral, ou de responsabilidade. Que assume no momento em que não esquece, e não esconde, e faz questão em mostrar, que as suas regras são diferentes das regras da vida a quem as pediu emprestadas para as transformar, para as tornar num espelho. E uma responsabilidade que continua, depois de exposta esta verdade indispensável da sua própria natureza, pela escolha das regiões da vida que esse espelho espelha, e pela consciência das zonas do pensamento a que a justaposição de zonas da vida que cada espectáculo espalhará há-de levar o espectador.
O teatro é efectivamente sobretudo uma questão moral, ou de responsabilidade. Que assume no momento em que não esquece, e não esconde, e faz questão em mostrar, que as suas regras são diferentes das regras da vida a quem as pediu emprestadas para as transformar, para as tornar num espelho. E uma responsabilidade que continua, depois de exposta esta verdade indispensável da sua própria natureza, pela escolha das regiões da vida que esse espelho espelha, e pela consciência das zonas do pensamento a que a justaposição de zonas da vida que cada espectáculo espalhará há-de levar o espectador.
sábado, 3 de fevereiro de 2007
Luis Miguel Cintra
Tenho a ideia que não assustando o público com a diferença e aceitando o lugar institucional que tenho posso confrontar o público, sem agressividade prévia, com algumas coisas que são fundamentais no pensamento humano, com as quais o público normalmente não se confronta. Embora muitas vezes fique com a sensação de que o público não ouve nada, nem percebe nada. Vem ver se as luzes estão melhores ou os fatos estão mais bonitos... É uma frustração enorme. A relação já prevista com o público corrompe a relação com o público.
em Actual, de 23 de Setembro de 2006
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