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domingo, 26 de abril de 2009

O Inominável

Eu, de quem nada sei, sei que tenho os olhos abertos, por causa das lágrimas que não param de correr. Sei que estou sentado, mãos nos joelhos, por causa da pressão nas nádegas, nas plantas dos pés, nas mãos, nos joelhos. Nas mãos sinto a pressão dos joelhos, nos joelhos, a das mãos, mas o que é que faz pressão nas nádegas, na planta dos pés? Não sei. As minhas costas não estão estão apoiadas. Refiro estes pormenores para ter a certeza de que não estou deitado de costas, pernas dobradas e levantadas, olhos fechados. Convém ter-se a certeza da posição corporal desde o início, antes de passar a coisas mais importantes.

sábado, 12 de janeiro de 2008

Malone Está a Morrer

Algumas linhas para me lembrar de que também eu subsisto. Mais ninguém veio. Quanto tempo desde a minha visita? Não sei. Muito tempo. E eu. Inegavelmente moribundo, e é tudo. De onde me vem esta certeza? Tento reflectir. Não posso. Sofrimento grandioso. Incho. E se rebentasse? O tecto aproxima-se, afasta-se, ritmadamente, como quando eu era feto. Assinale-se igualmente um grande ruído de águas, fenómeno mutatis mutandis análogo talvez à miragem, no deserto. Janela. Não voltarei a vê-la, lamentavelmente, impossibilitado que estou de mexer a cabeça. Luz uma vez saturnina, bem acamada, atravessada de torvelinhos, escavando-se em funis profundos de fundo claro, ou deveria eu dizer o ar, luz aspirante. Tudo está a postos. Menos eu. Nasço dentro da minha morte, se me atrevo a dizê-lo. É essa a minha impressão. Gestação invulgar. Os pés saíram já, da grande cona da existência. Apresentação favorável, espero bem. A minha cabeça morrerá em último lugar. Dá cá as tuas mãos. Não posso. A dilacerante dilacerada. Depois de a minha história se deter continuarei ainda vivo. Desfazamento que promete. A meu respeito acabou-se. Não tornarei a dizer eu.