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sexta-feira, 9 de junho de 2023

A morte de Ivan Ilitch

Todos vêem que ele tem dificuldades e dizem-lhe "Podemos interromper, se está cansado. Descanse." Descansar? Não, não está cansado e acabam a partida. Estão sombrios e silenciosos. Ivan Ilitch sente que foi o responsável por aquele tom soturno, e não consegue dissipá-lo. Ceiam e separam-se, e Ivan Ilitch fica sozinho com a consciência de que a sua vida está envenenada para ele, envenena a vida dos outros e que esse veneno não diminui, mas penetra cada vez mais no seu ser.

Com essa consciência, e com a dor física e o horror, vai deitar-se na cama e muitas vezes não dorme com dores a maior parte da noite. E de manhã tem de se leveantar outra vez e veste-se, vai para o tribunal, fala, escreve, e se não vai, fica em casa com aquelas vinte e quatro horas do dia, cada uma das quais um tormento. E tem de viver assim à beira da morte sozinho, sem uma única pessoa que o compreenda e tenha pena dele.

terça-feira, 9 de maio de 2023

A morte de Ivan Ilitch

 Gozavam todos de boa saúde. Não se podia chamar doença àquilo de que Ivan Ilitch por vezes falava: tinha um gosto estranho na boca e um certo desconforto no lado esquerdo do ventre.

Mas aconteceu que esse desconforto começou a aumentar e a transformar-se não ainda em dor, mas numa sensação de peso constante, acompanhada de mau humor. Esse mau humor, que se acentuava cada vez mais, começou a arruinar a vida agradavél que se estabelecera na família Golovin.

segunda-feira, 16 de agosto de 2021

Crime e Castigo

Entrou o médico, um velhinho alemão asseado, olhando à volta com desconfiança; aproximou-se do doente, tomou-lhe o pulso, apalpou-lhe atentamente a cabeça e, com a ajuda de Katerina Ivanovna, desabotoou-lhe a camisa empapada em sangue pondo à vista o peito nu. Todo o peito estava amolgado, pisoteado, espedaçado; do lado direito tinha várias costelas partidas. Do lado esquerdo, no sítio do coração, havia uma mancha sinistra, negro-amarelada e grande, um coice cruel. O médico franziu a testa. O polícia tinha-lhe contado que o homem tinha sido apanhado pela roda e arrastado uns trinta passos pela calçada.

- É impressionante que tenha recuperado a consciência - sussurrou o médico a Raskolnikov.

- O que me diz, doutor? - perguntou este-

- Vai morrer, não tarda.

- Nenhuma esperança?

- Nenhuma. São os últimos estertores... Além disso tem uma ferida muito perigosa na cabeça... Hum... Talvez pudesse fazer-lhe um sangria... mas... seria inútil.

terça-feira, 6 de julho de 2021

Três mortes

 No peito do doente começou a borbulhar qualquer coisa, e uma tosse violenta e seca, sem expectoração, fê-lo dobrar-se e engasgar-se.

- De que é que ele precisa agora? - metralhou de repente a cozinheira em voz alta e fina. - Faz dois meses que não sai lá de cima, tosse tanto que parece que se rasga, até a mim me dói tudo cá por dentro quando o oiço. As botas para quê, para que é que ele as quer? Não o vão enterrar com botas novas. Já há muito que devia ter ido, Deus me perdoe o meu pecado. Irra, parece que arrebenta com a tosse. Se calhar devíamos levá-lo para outra isbá, ou para outro sítio qualquer, sei lá... Na cidade há hospícios para isto. Isto assim está certo? Ocupar o lugar todo e não sair de lá? Vivemos aqui neste aperto... E depois ainda querem que haja asseio.

quarta-feira, 9 de junho de 2021

Diário

Vila Nova, 7 de Novembro de 1934


Acabou hoje tudo. Como sempre, fiquei derrotado. Quando já não era possível ter ilusões, agarrava-me a uma ilusão ainda maior e... esperava. É coisa que nunca pude destruir em mim: a ideia de que um ser, desde que nasce, fica logo com direito (e obrigação) de viver os sessenta anos da média. Pelo menos os sessenta anos da média.

Muitas vezes me aconteceu ir a férias e assistir a uma sementeira de meu Pai. Depois, ver o milhão ou o linho a despontar. E, embora sabendo que aquelas vidas eram efémeras, voltar à leira nas férias seguintes e ficar desolado ao ver lá, em vez de linho ou milhão, um batatal espesso. E dizer a meu Pai: «— Então o linho que havia aqui? — Colheu-se em Agosto, filho.» Em Agosto, realmente, o linho amadurece. Nos curtos meses que a natureza
determina, tira ao sol o mais calor que pode e enche-se dele. Depois dá sinais de cansaço, e morre. Mas este pequenito ainda não tinha bebido nenhum sol. Ainda estava na primeira semana. Nem o caule sobriamente fibroso, nem a flor azul e delicada, nem a semente parda e madura. E foi por tudo isto que, ao chegar
ao quarto, tive a sensação mais dolorosa da minha vida. Ali estava, ainda não substituído por cevada ou centeio, mas prestes. A mãe lavada em pranto. E ele, muito branco, muito discreto, voltado para a parede, a renegar de costas os remédios inúteis espalhados pela mesa-de-cabeceira.
Um médico nem sequer pode chorar. Só pode pegar no bracito magro e morno, apertar a artéria inerte e ficar uns segundos a trincar os dentes. Depois sair sem dizer nada. Quem saberá por aí uma palavra para estes momentos? Uma palavra para um médico dizer a esta mãe, que entregou à vida um filho vivo e recebeu da vida um filho morto.

terça-feira, 9 de março de 2021

O Papagaio de Flaubert

 Lógica (e Medicina)


a) Achille-Cleóphas Flaubert, em luta com o filho mais novo, pediu-lhe que explicasse para que servia a literatura. Gustave, devolvendo a pergunta ao seu pai cirurgião, pediu-lhe que lhe explicasse para que servia o baço: "Nada sabe acerca do baço, nem eu, excepto que ele é tão indispensável ao nosso corpo como a poesia o é para o espírito". O Dr. Flaubert saiu vencido.

Madame Bovary

O programa afixado com a lista das cadeiras a estudar deixou-o atordoado: Anatomia, Patologia, Fisiologia, Farmácia, Química, Botânica, Clínica, Terapêutica, sem contar Higiene eMatéria Médica, tudo nomes cuja etimologia ignorava e que se lhe apresentavam como outras tantas portas de santuários cheios de augustas trevas. 

Não compreendia nada; por mais que escutasse, não apreendia. 

No entanto, aplicava-se ao estudo, tinha cadernos cosidos com capas, assistia a todas as aulas, não faltava a uma única visita. Cumpria a sua tarefa quotidiana como um cavalo de picadeiro que gira no mesmo lugar, com os olhos vendados, ignorando o que está a fazer.

Madame Bovary

 Charles entrou na sala. Boulanger apresentou-Lhe o homem, que queria ser sangrado, porque sentia formigueiros pelo corpo todo.

 - A sangria vai-me purgar - respondia ele a todos os argumentos. 

Bovary mandou então trazer uma ligadura e uma bacia e pediu a Justin que segurasse nela. Depois voltou-se para o camponês, que já estava lívido: 

- Não tenha medo, homem! 

- Não, não, respondeu o outro, faça lá isso! 

E, com ar fanfarrão, estendeu o grosso braço. Com a picada da lanceta, o sangue esguichou e foi sujar o espelho. 

- Aproxima a bacia! - exclamou Charles. 

- Olha! - dizia o campónio -, parece mesmo uma bica a correr! Tenho o sangue bastante vermelho! Deve ser bom sinal, não? 

- Às vezes - comentou o oficial de saúde - não se sente nada no princípio, mas depois a síncope declara-se, especialmente nos indivíduos bem constituídos, como este. 

O camponês, ao ouvir estas palavras, largou o estojo que fazia girar entre os dedos. Com um safanão dos ombros fez estalar as costas da cadeira. Deixou cair o chapéu. 

- Já calculava isto - disse Bovary, aplicando o dedo sobre a veia. A bacia começava a tremer nas mãos de Justin; os joelhos vacilaram-lhe e empalideceu. -

 A minha mulher! Emma! - chamou Charles. 

Ela desceu a escada num pulo. 

- Vinagre! - gritou ele.- Oh, meu Deus, dois de uma vez só! E, na sua atrapalhação, tinha dificuldade em aplicar a compressa. - Não é nada - dizia calmamente o senhor Boulanger, enquanto amparava Justin com os braços. 

E sentou-o em cima da mesa, apoiando-lhe as costas contra a parede. A senhora Bovary começou logo a tirar-lhe a gravata. Havia um nó nos cordões da camisa; levou uns minutos a remexer com os seus dedos leves no pescoço do rapaz; seguidamente pôs vinagre no seu lenço de cambraia e molhou-lhe as fontes com pequenos toques, soprando-Lhes em cima delicadamente. O carroceiro voltou a si; mas a síncope de Justin ainda durava e as pupilas desapareciam-lhe na esclerótica descorada como flores azuis dentro de leite.

 - Tem de se Lhe esconder isso - disse Charles. A senhora Bovary pegou na bacia. Para a meter debaixo da mesa, com o movimento que fez ao inclinar-se, o vestido (era um vestido de Verão com quatro folhos, amarelo, de cintura descaída e largo de saia) abriu-se em volta dela, sobre o ladrilho da sala; e, à medida que Emma, abaixada, oscilava um pouco com o afastamento dos braços, o tecido tufado enrugava-se de um ou de outro lado, conforme as inflexões do corpo. Seguidamente foi buscar uma garrafa de água e estava a derreter pedaços de açúcar quando entrou o farmacêutico. A criada fora chamá-lo naquela balbúrdia; ele, encontrando o seu aluno com os olhos abertos, respirou fundo. Depois, girando-lhe em torno, olhava-o de alto a baixo. 

- Parvo! - dizia ele.- É mesmo parvinho! Parvo com todas as letras! Olhem que grande coisa, afinal, uma flebotomia! É isto um valentão que não tem medo de nada! Parece um esquilo, o maroto que aí se vê, capaz de trepar a alturas vertiginosas para sacudir as nozes. Vá lá, fala, anda, gaba-te! Eis uma excelente inclinação para exerceres mais tarde a farmácia; é que podes ser chamado, em circunstâncias graves, diante dos tribunais, para esclarecer a consciência dos magistrados; e terás mesmo de manter o sangue frio, raciocinar, mostrar que és um homem, ou então passar por um imbecil! 

Justin não respondia.