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sexta-feira, 24 de junho de 2022

O Idiota

 É possível amar todos os homens sem excepção, todos os nossos semelhantes? Eis uma pergunta que tenho feito muitas vezes a mim própria. Naturalmente não, é até contra a natureza. O amor da humanidade é uma abstracção através da qual nos amamos a nós próprios.

segunda-feira, 16 de agosto de 2021

Crime e Castigo

Entrou o médico, um velhinho alemão asseado, olhando à volta com desconfiança; aproximou-se do doente, tomou-lhe o pulso, apalpou-lhe atentamente a cabeça e, com a ajuda de Katerina Ivanovna, desabotoou-lhe a camisa empapada em sangue pondo à vista o peito nu. Todo o peito estava amolgado, pisoteado, espedaçado; do lado direito tinha várias costelas partidas. Do lado esquerdo, no sítio do coração, havia uma mancha sinistra, negro-amarelada e grande, um coice cruel. O médico franziu a testa. O polícia tinha-lhe contado que o homem tinha sido apanhado pela roda e arrastado uns trinta passos pela calçada.

- É impressionante que tenha recuperado a consciência - sussurrou o médico a Raskolnikov.

- O que me diz, doutor? - perguntou este-

- Vai morrer, não tarda.

- Nenhuma esperança?

- Nenhuma. São os últimos estertores... Além disso tem uma ferida muito perigosa na cabeça... Hum... Talvez pudesse fazer-lhe um sangria... mas... seria inútil.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

O Adolescente

- Todos os Estados, simplesmente, apesar de «feitos todos os balanços orçamentais e dada a ausência de défices», se verão un beau matin, todos, numa atrapalhação definitiva e não irão querer pagar para, no meio daquela falência geral, se renovarem. Entretanto, todo o elemento conservador de todo o mundo se oporá a isso, porque será ele, justamente, o accionista e o credor, e não quererá admitir a bancarrota. Aqui começará, obviamente, a oxidação total, por assim dizer: virão muitos judeus e começará o reino dos judeus; em seguida, toda a gente, mesmo aqueles que nunca possuíram nada, isto é, todos os miseráveis, não quererão, naturalmente, participar nessa oxidação... Dar-se-á início a uma luta e, depois de setenta e sete derrotas, os miseráveis liquidarão os accionistas, tirar-lhes-ão as acções e ocuparão o seu lugar, como accionistas, evidentemente. Talvez tragam uma palavra nova, talvez não. O mais provável é que também vão à falência. A seguir, meu amigo, sou incapaz de prever seja o que for nos destinos que mudarão a face deste mundo. Aliás, podes sempre consultar o Apocalipse...

- Será tudo assim tão material? Será que o mundo actual vai ruir por causa apenas das finanças?

- Oh, é claro que referi só um cantinho do cenário geral, mas esse cantinho está ligado ao resto por laços, por assim dizer inquebrantáveis.

- Então, o que é preciso fazer?

- Oh, meu Deus, não tenhas pressa: isso tudo não vai acontecer tão cedo. De qualquer forma, de uma maneira geral, o melhor é não se fazer nada: assim, pelo menos, terás a tranquila consciência de não teres participado em nada.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

O Adolescente




Não preciso do dinheiro, ou melhor, não é do dinheiro que preciso, nem do poder, aliás; preciso apenas do que se adquire com o poder e que é impossível adquirir sem o poder: a consciência solitária e calma da minha força! É esta a mais completa definição da liberdade, liberdade com que o nosso mundo anda a quebrar a cabeça! Liberdade! Escrevi, finalmente, esta grande palavra... Sim, a consciência solitária da força é fascinante e maravilhosa. Tenho força e estou calmo. Nas mãos de Júpiter estão os trovões - e então? Está calmo, não o ouvimos trovejar muitas vezes. A um parvo, parecerá que Júpiter dorme. Ora, se pusessem no lugar de Júpiter um literato ou uma campónia palerma, que trovões, credo, que trovões ouviríamos!

Se tivesse poder, raciocinava eu, nem sequer precisaria dele; asseguro-vos que eu próprio, por minha própria vontade, ocuparia o último lugar. Se fosse um Rothschild, usaria um sobretudo velhote e um guarda-chuva. Quereria lá saber que me empurrassem na rua, que fosse obrigado a correr aos saltinhos pela lama para não ser atropelado pelos cocheiros! A consciência de ser eu, eu Rothschild, alegrar-me-ia ainda mais nesses momentos. Saberia que poderia ter um almoço como ninguém e o primeiro cozinheiro do mundo, e bastar-me-ia sabê-lo. Comeria uma fatia de pão com toucinho e ficaria de consciência saciada. Já hoje penso assim.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Cadernos da Casa Morta

À noite, já na escuridão, antes de fecharem as casernas, andava eu ao longo da paliçada e descia sobre a minha alma uma tristeza pesada, tão forte que nunca, durante toda a minha vida prisional, viria a sentir tristeza assim. É duro o primeiro dia de prisão, seja a prisão qual for... Mas lembro-me de que me angustiava acima de tudo uma ideia, que depois me perseguiria obsessivamente e que até hoje se mantém irresolúvel para mim: a desigualdade de penas por crimes iguais. Também é verdade que é impossível comparar crimes, mesmo por aproximação. Por exemplo: Fulano matou uma pessoa, Sicrano também; foram analisadas todas as circunstâncias dos dois casos - tanto para o primeiro como para o segundo caso, a pena foi a mesma. No entanto, veja-se que diferença há entre os dois crimes. O primeiro, por exemplo, esfaqueou uma pessoa por nada, por uma cebola: saiu à estrada, matou um mujique que por lá passava, e este tinha apenas consigo uma cebola. «Então, chefe! Mandaste-me à caça: matei um mujique e encontrei-lhe no bolso apenas uma cebola.» - «Parvo! Uma cebola é um copeque! Cem almas são cem cebolas - já faz um rublo!» (Esta é uma lenda prisional.) O segundo matou, defendendo de um tirano voluptuoso a honra da noiva, da irmã, da filha. Há quem mate porque é vagabundo, cercado por toda uma legião de polícias, defendendo com unhas e dentes a sua liberdade, a sua vida, às vezes quase a morrer de fome; outro degola criancinhas pelo prazer de matar, de sentir nas mãos o sangue quente delas, deliciando-se com o medo delas, com o último estertor do passarinho que tem sob a faca. E então? Ambos vão parar aos mesmos trabalhos forçados. É claro que as penas variam. No entanto, tais variações são relativamente pequenas; entretanto, para o mesmo género de crime, há um número incontável de diferenças. Cada carácter, cada diferença. Digamos que é impossível conciliar, esbater essa diferença, que, de certo modo, se trata de um problema irresolúvel - a quadratura do círculo, admitamos! Porém, mesmo que tal desigualdade não existisse, veja-se a diferença em consequência do castigo... Eis um homem que, na prisão, definha, se consome como uma vela; eis outro que, antes de cair na prisão, nem sabia que existia no mundo vida tão divertida, tão agradável clube de bravos companheiros. Sim, também vão para a prisão pessoas assim. Eis, por exemplo, um homem culto, de consciência desenvolvida, com moral, com coração. A dor do seu coração, mais do que quaisquer castigos, atormentá-lo-á até à morte. Censurar-se-á pelo seu crime da maneira mais implacável, mais impiedosa do que a mais severa das leis. Agora, eis ao lado dele outro homem que, no decurso de toda a pena, nem uma única vez pensará no assassínio que cometeu. Até se considera cheio de razão. Existe também quem cometa um crime premeditado só para ir para os trabalhos forçados e, com isso, se libertar da vida incomparavelmente mais dura que tem em liberdade. É um homem que, em liberdade, vivia numa humilhação extrema, nunca comia o suficiente para matar a fome e trabalhava de manhã à noite para o patrão; ora, na prisão o trabalho é menos duro do que em casa, o pão nunca falta, ainda por cima um pão fino que nunca dantes comeu; nos feriados até servem carne de vaca, há a possibilidade de alguma esmola, de se arranjar algum copeque. E a companhia? Gente manhosa, hábil, sabida; então, o homem olha para os seus companheiros com um espanto respeitoso; ainda nunca vira gente assim; vê nela a mais alta sociedade que imaginar se possa neste mundo. Será que o castigo, para estes dois indivíduos, é igualmente sensível? De resto, quem se preocupa com problemas irresolúveis? Toca o tambor, são horas de voltar à caserna.

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Os Irmãos Karamázov

Em vez disso, meus senhores, vou contar-lhes outra história, desta vez sobre o próprio Ivan Fiódorovitch, uma história muito interessante e característica. Nada mais do que há cinco dias, numa reunião de sociedade local, preponderantemente feminina, este senhor declarou solenemente durante uma discussão que em toda a Terra não existia nada que fizesse com que as pessoas gostassem dos seus semelhantes, que em geral não existe uma lei da natureza que obrigue uma pessoa a gostar de outra, e que, se houve ou houvesse amor na Terra isso não seria por causa de uma lei natural, mas unicamente porque as pessoas acreditavam na sua imortalidade. Ivan Fiódorovitch também acrescentou entre parênteses que é nisso que consiste toda a lei natural e que bastava, por conseguinte, eliminar na humanidade a fé na imortalidade para desaparecer do seio dela não só todo o amor, mas toda a força viva susceptível de continuar a vida no mundo. Mais ainda: então não existirá nada imoral, tudo será permitido, inclusive a antropofagia. E ainda não é tudo: acabou por afirmar que, para qualquer pessoa particular, por exemplo, como nós agora aqui, que não acredite em Deus nem na sua imortalidade, a lei moral da natureza tem de transformar-se, de imediato, no contrário da lei anterior, a lei religiosa, e que o egoísmo, levado à perversão, não só deve ser permitido ao homem como deve ser reconhecido necessário, como a mais sensata e quase nobre saída para a sua situação. Com este paradoxo, meus senhores, podem tirar as conclusões sobre tudo o resto que se digna proclamar e tenciona ainda proclamar, talvez, o nosso querido, excêntrico e paradoxal Ivan Fiódorovitch.

terça-feira, 10 de abril de 2007

Crime e Castigo

- Aconteceu que uma vez eu fiz a mim próprio uma pergunta: se, por exemplo, o Napoleão estivesse no meu lugar e não tivesse, para iniciar a sua carreira, nem Toulon, nem Egipto, nem a passagem através do Monte Branco; se apenas tivesse, em vez dessas coisas belas e monumentais, uma velha ridícula, viúva de pequeno funcionário, que ainda por cima fosse preciso matar para lhe pilhar da arca o dinheiro (para a carreira, percebes?); então, ousaria ele, ou não, semelhante coisa, se não tivesse outra saída? Teria ele, ou não, escrúpulos por a empresa não ser monumental e... ser pecaminosa? Agora, ouve: esta «questão» atormentou-me durante bastante tempo, e até senti muita vergonha quando cheguei à conclusão (por fim e repentinamente) de que não só o Napoleão não teria escrúpulos, mas que também não lhe passaria sequer pela cabeça que a empresa não era monumental... e nem compreenderia, até, por que razão devia ter escrúpulos. E, se não tivesse outra saída, estrangularia a velha num instante, não a deixaria soltar um pio, sem quaisquer reflexões!... Então, também eu... deixei de reflectir... e estrangulei... seguindo o exemplo de uma autoridade no assunto... Aconteceu exactamete como to estou a contar! Achas graça? Sim, e a maior graça disto tudo, Sónia, é que talvez tenha sido precisamente assim...

domingo, 11 de fevereiro de 2007

O Idiota

- Uma história estúpida, e conta-se em duas palavras - começou o general todo inchado. - Há dois anos, sim!, quase há dois anos, acabavam de abrir o novo caminho-de-ferro de N..., e eu (já um paisano), tendo de tratar de alguns assuntos, extremamente importantes para mim, relacionados com a resignação do meu cargo, comprei um bilhete de primeira classe: entrei, sentei-me, fumei. Ou antes, continuei a fumar, porque tinha acendido o charuto ainda antes. Estou sozinho no compartimento. Não é proibido fumar, mas também não é permitido; como de costume, é meio permitido; e também, isso depende da pessoa que fuma. A janela está aberta. De repente, mesmo ao sinal de partida, instalam-se ali duas senhoras com um caniche, mesmo à minha frente; vinham atrasadas; uma, ataviada do modo mais pomposo, de vestido azul-claro; a outra, com um mais modesto, de seda preta, com romeira. De aparência bastante boa, olhares altivos, falam inglês. Eu, claro, continuo a fumar. Ou seja, de início até pensei no assunto, mas depois continuei a fumar para a janela, porque estava aberta. O caniche vai deitado nos joelhos da senhora de azul-claro; pequenino, do tamanho do meu punho, preto e de patas brancas, o que é uma raridade. A coleira é de prata com sinete. Continuo nas calmas. Mas noto que as damas parecem zangadas, por causa do charuto, claro. Uma fita-me com o lornhão, de tartaruga. Eu continuo na mesma, até porque elas não me dizem nada! Se me dissessem, se avisassem, se me pedissem, porque, afinal de contas, existe uma língua humana! Em vez disso calam-se... e de repente (notem, sem qualquer aviso, isto é, sem o mínimo aviso, como se tivesse ficado desvairada) a de azul-claro arranca-me o charuto da mão e atira-o pela janela fora. O comboio corre a todo o vapor, eu fico a olhar como um maluco. Uma selvagem, uma mulher selvagem, literalmente no estado de selvajaria; mas, de resto, corpulenta, cheia, alta, loira, faces coradas (até de mais), os olhos a chisparem raios. Eu, sem dizem uma palavra, com uma cortesia extraordinária, uma cortesia absoluta, uma cortesia, por assim dizer, mais fina, levo dois dedos ao caniche, agarro-o delicadamente pelo cachaço e zás - janela fora atrás do charuto! Só ganiu! O comboio continua a todo o vapor...