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sexta-feira, 13 de março de 2009

Um Amor Feliz

De regresso ao caldeirão, mal-humorado e, olhando de novo aqueles oligarcazinhos de meia tigela, que comiam e bebiam de tudo com tão boa boca, avidamente metidos até ao gasganete em negociatas de batatas ou de batotas, em tráficos de terrenos ou de terrores, acudiu-me a conclusão de não ser por acaso que «poder» e «podre», em português, se escrevem fatalmente com as mesmas letras. Creio que não acontece em mais nenhuma língua do mundo.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Um Amor Feliz

Raízes, ramos, folhas, frutos. E a gruta: e o grito. Nem tratámos, desta vez, de sequer alcançar o divã. Bastou-nos, defronte do espelho, o escasso rectângulo desse tapete. E dificilmente percebo como conseguimos, no fim, içarmo-nos até esta poltrona. Encontramo-nos, no entanto, muito mais despertos do que supúnhamos: sentimo-nos leves, límpidos, alados, lúcidos, como depois de uma trovoada.

Um Amor Feliz

E já nos estamos a beijar. E não só com as bocas: com os dedos, também, que vão de leve modelando o volume das testas, o relevo das pálpebras, o contorno das orelhas, a espessura dos cabelos. É como se fôssemos afinal uma cega e um cego, de há muito conhecidos, de há muito separados, que ainda mal acreditam no milagre de se reencontrarem. E cegos, às cegas, mas bordões um do outro, mutuamente nos arrastamos, ou nos deixamos conduzir, desde a entrada até aí, aos pés do divã. Então, sem se curvar, socorrendo-se apenas da pressão de cada um dos calcanhares sobre o outro, liberta-se de ambos os sapatos. Agora, sim, estamos exactamente da mesma altura.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Grito

Cedros, abetos,
pinheiros novos.
O que há no tecto
do céu deserto,
além do grito?
Tudo que é' nosso.

São os teus olhos
desmesurados,
lagos enormes,
mas concentrados
nos meus sentidos.
Tudo o que é nosso
é excessivo.

E a minha boca,
de tão rasgada,
corre-te o corpo
de pólo a pólo,
desfaz-te o colo
de espádua a espádua,
são os teus olhos,
depois o grito.

Cedros, abetos,
pinheiros novos.
É o regresso.
É no silêncio
de outro extremo
desta cidade
a tua casa.
É no teu quarto
de novo o grito.

E mais nocturna
do que nunca
a envergadura
das nossas asas.
Punhal de vento,
rosa de espuma:
morre o desejo,
nasce a ternura.
Mas que silêncio
na tua casa.

sábado, 23 de junho de 2007

Inscrição Sobre as Ondas

Mal fora iniciada a secreta viagem,
um deus me segredou que não iria só.

Por isso a cada vulto os sentidos reagem,
supondo ser a luz que o deus me segredou.

sábado, 16 de junho de 2007

Cousas do mar

Corpo de nuvem que, do mar saída,
volvida em chuva para o mar voltou,
quem te arrancou de mim? Quem te deu vida,
corpo que do meu corpo se arrancou?

Já foste, não sei quando, despedida.
Quem, para mim, de novo te arrastou?
E quem te esparge, em vozes diluída,
corpo de nuvem, neste mar que sou?

sábado, 21 de abril de 2007

Pele

Quem foi que à tua pele conferiu esse papel
de mais que tua pele ser pele da minha pele

domingo, 18 de março de 2007

David Mourão-Ferreira

CAPITAL

Casas, carros, casas, casos.
Capital
encarcerada.

Colos, calos, cuspo, caspa.
Cautos, castas. Calvos, cabras.
Casos, casos... Carros, casas...
Capital
acumulado.

E capuzes. E capotas.
E que pêsames! Que passos!
Em que pensas? Como passas?
Capitães. E capatazes.
E cartazes. Que patadas!
E que chaves! Cofres, caixas...
Capital
acautelado.

Cascos, coxas, queixos, cornos.
Os capazes. Os capados.
Corpos. Corvos. Copos, copos.
Capital,
oh! capital, capital
decapitada!

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007

David Mourão-Ferreira

Crepúsculo

É quando um espelho, no quarto,
se enfastia;
Quando a noite se destaca
da cortina;
Quando a carne tem o travo
da saliva,
e a saliva sabe a carne
dissolvida;
Quando a força de vontade
ressuscita;
Quando o pé sobre o sapato
se equilibra...
E quando às sete da tarde
morre o dia
- que dentro de nossas almas
se ilumina,
com luz lívida, a palavra
despedida.