Mostrar mensagens com a etiqueta Jean-Paul Sartre. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Jean-Paul Sartre. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

A Náusea

Em 1787, numa estalem perto de Moulins, estava a morrer um velho, amigo de Diderot, formado pelos filósofos. Os padres das redondezas estavam extenuados: tinham tentado tudo em vão; o homenzinho recusava os últimos sacramentos. O Sr. de Rollebon, que passou por ali e que não acreditava em nada, apostou com o pároco de Moulins que, em menos de duas horas, seria capaz de converter o doente aos sentimentos cristãos. O pároco aceitou a aposta, e perdeu: atacado às três horas da manhã, o doente confessou-se às cinco e morreu às sete. «Sois, na verdade, muito forte na arte da controvérsia», reconheceu o pároco; «levais a palma aos nossos!» «Não controverti», respondeu o Sr. de Rollebon, «meti-lhe medo com o Inferno.»

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Os Sequestrados de Altona

VOZ DE FRANTZ

Séculos, eis pois o meu século, solitário e disforme, o réu. O meu cliente dilacera-se por suas próprias mãos: o que tomais por linfa branca é sangue: não glóbulos vermelhos - o réu está a morrer de fome. Mas eu vos direi o segredo desta perfuração múltipla: o século teria sido bom, se o homem não tivesse sido acossado pelo seu inimigo cruel, imemorial, pela espécie carnívora que tinha jurado a sua perda, pela besta sem pêlo e maligna - pelo homem. Um e um são um, eis o nosso mistério. A besta escondia-se, nós surpreendíamos-lhe o olhar, subitamente, nos olhos íntimos dos nossos próximos; então feríamos: legítima defesa preventiva. Eu próprio surpreendi a besta, feri, caiu um homem. Nos seus olhos moribundos vi a besta, sempre viva, vi-a eu. Um e um são um: que mal-entendido! Donde vem - de quem, de quê? - este gosto rançoso e enjoativo na minha boca? Do homem? Da besta? De mim mesmo? É o gosto do século. Séculos felizes, vós que ignorais os nossos ódios, como havíeis de compreender o poder atroz dos nossos amores mortais? O amor, o ódio, um e um... Absolvei-nos! O meu cliente foi o primeiro a conhecer a vergonha: sabe que está nu. Crianças lindas que saís de nós, as nossas dores vos terão feito. Este século é uma mulher: está a dar à luz. Condenareis a vossa mãe? Hem? Respondei, vamos! (Pausa.) O século trinta não responde. Talvez não haja mais séculos após o nosso. Talvez alguma bomba tenha assoprado as luzes. Tudo estará morto: os olhos, os juízes, o tempo. Noite. Ó Tribunal da noite, tu que foste, que serás, que és, eu fui! Eu fui! Eu, Frantz von Gerlach, aqui, neste quarto, pus o século às minhas costas e disse: «Eu responderei por ele. Hoje e sempre.» Hem? O quê?

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

A Náusea

Terça Feira.

Nada. Existi.

A Náusea

Está a dar a meia hora das cinco. Levanto-me; cola-se-me a carne à camisa fria. Saio. Porquê? Bem, porque também não tenho razão para não sair. Mesmo que fique em casa, mesmo que vá pîr-me a um canto, encolhido e calado, não me esquecerei de mim. Lá ficarei a pensar no sobrado. Eu sou.