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domingo, 14 de dezembro de 2008

A Peste

É ainda por isso que esta epidemia não me ensina nada, senão que é preciso combatê-la ao seu lado. Sei, de ciência certa, - sim, Rieux, sei tudo da vida, bem vê - que cada um traz em si a peste, porque ninguém, não, ninguém no mundo está indemne dela. Sei ainda que é preciso vigiar-se sem descanso para não se ser levado, num minuto de distracção, a respirar para a cara de outrem e a transmitir-lhe a infecção. O que é natural é o micróbio. O resto - a saúde, a integridade, a pureza, se quiser - é o efeito da vontade, de uma vontade que não deve jamais vergar. O homem honesto, aquele que não infecta quase ninguém, é aquele que tem o menor número de distracções possível. E se é preciso ter vontade e tensão para nunca se estar distraído! Sim, Rieux, é bem fatigante ser um pestiferado. Mas é ainda mais fatigante não querer sê-lo. É por isso que toda a gente se mostra fatigada, visto que toda a gente, hoje em dia, se encontra um pouco pestiferada. Mas é por isso que alguns que querem deixar de o ser conhecem um extremo de fadiga de que já nada os libertará, a não ser a morte.

domingo, 14 de outubro de 2007

Do prefácio de O Avesso e o Direito

Sim, nada me impede de sonhar, na própria hora do exílio, porque, pelo menos, sei, de ciência certa, que uma obra de homem outra coisa não é senão este longo caminhar para tornar a achar, pelos desvios da arte, as duas ou três imagens simples e grandes para as quais o coração pela primeira vez se abriu. É talvez por isso que, depois de vinte anos de trabalhos e de produção, continuo a viver na ideia de que a minha obra nem sequer começada está. Desde o instante em que, por ocasião desta reedição me voltei para as páginas que escrevi, foi isso que, em primeiro lugar, tive vontade de assinalar aqui.

domingo, 8 de abril de 2007

Estado de Sítio

VICTORIA
(...)
Num canto do quarto onde estávamos, vi os cavalos pretos do amor, ainda cobertos de estremecimentos, mas desde então tranquilos. Era por nós que eles esperavam.

DIEGO
Eu por meu lado não estava surdo nem cego. Mas não ouvia senão o latejar suave do meu sangue. A minha alegria era súbita e sem impaciência. Oh cidade de luz, eis que me dão a tua posse para a vida, até à hora em que a terra nos chame! Amanhã partiremos juntos e montaremos a mesma sela.

VICTORIA
Sim, fala a nossa linguagem mesmo que os outros nos tomem por loucos. Amanhã beijarás a minha boca. Olho para a tua e as minhas faces queimam. Dize, é o vento sul?
DIEGO
É o vento sul e queima-me também. Onde está a fonte que me há-de curar?

domingo, 18 de março de 2007

Estado de Sítio

Desgraça! Desgraça! Estamos sós, nós e a Peste! A última porta fechou-se! Já não ouvimos nada. O mar estará de agora em diante longe de mais. Agora cerca-nos a dor e temos de refazer os mesmos caminhos nesta cidade estreita, sem árvores e sem água, com as altas portas polidas fechadas a cadeado, rodeada de multidões ululantes. Cádis enfim, como uma arena negra e vermelha onde se vão celebrar os morticínios rituais. Irmãos, este infortúnio é maior do que a nossa falta, nós não merecemos esta prisão! O nosso coração não era inocente, mas amávamos o mundo e os seus verões: isto deveria bastar para nos salvar! Os ventos sustiveram o seu ímpeto e o céu está vazio! O silêncio será por muito tempo a nossa lei. Mas uma última vez, antes que as nossas bocas se fechem sob a mordaça do terror, nós gritaremos no deserto.