Não sei quem disse que os grandes dramaturgos acabam sempre por escrever a peça essencial das suas vidas, a que representa mais que nenhuma outra o exame de consciência, a confissão, o Juízo Final. Essa pela que, se não é a última, é como se fosse, constitiu como que um testamento espiritual em forma dramática, uma exposição crítica da vida humana dedicada ao teatro, ou o que é o mesmo, do teatro identificado com a vida. (...) Mas este erguer do véu que oferece num instante, e afinal de uma vez para sempre (ainda quando se repita ou nunca mais), o espectáculo da realidade autêntica, eis o que distingue o conhecimento superior reservado aos escritores e aos santos, da ignorância feliz em que vivem e proliferam e se multiplicam e mutuamente se lambem os falsos escritores em prosa ou verso e os falsos santos que exercem burocraticamente uma cómoda e conformista caridade.
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sábado, 9 de abril de 2022
sábado, 30 de abril de 2011
A crítica portuguesa no século XX
Os catedráticos portugueses, esmagados de cursos com enorme números de alunos, não têm tempo senão para repetir este ano o que disseram o ano passado, e para lerem interminavelmente as provas escritas de estudantes que nem conhecem. E não foram formados senão num historicismo precipitado e superficial, que por sua vez transmitem aos professores secundários que os seus alunos serão. Deste trágico divórcio duas consequências resultaram: primeira, a tendência dos professores para se absterem do exercício da crítica ou para a praticarem apenas a um nível que se diria de divulgação (pois que partem do aristocrático princípio de que o saber é o que eles têm para seu uso e não importa comunicar ao público); segunda, a circunstância de toda a crítica viva e actuante ter sido na verdade feita por franco-atiradores, que a si mesmos se educaram sem disciplina académica ou contra ela, e que se dirigem sobretudo ao grande público, e colocando-se quase sempre em nível jornalistico. A falta de revista de cultura, que não sejam apenas repositórios de separatas académicas para justificação internacional da máfia universitária, e a necessidade de escrever em suplementos e páginas literárias dos grandes jornais, uma e outra dificultaram longamente que a ciência literária seja viva e que o ensaísmo literário se coloque acima da semanal crítica dos livros que se publicam, feita em critérios impressionistas ou de oportunismo político.
Epígrafe para a arte de furtar
Roubam-me deus,
outros o duabo
- quem cantarei?
roubam-me a pátria;
e a humanidade
outros ma roubam
- quem cantarei?
sempre há quem roube
quem eu deseje;
e de mim mesmo
todos me roubam
- quem cantarei?
roubam-me a voz
quando me calo,
ou o silêncio
mesmo se falo
- aqui del-rei!
outros o duabo
- quem cantarei?
roubam-me a pátria;
e a humanidade
outros ma roubam
- quem cantarei?
sempre há quem roube
quem eu deseje;
e de mim mesmo
todos me roubam
- quem cantarei?
roubam-me a voz
quando me calo,
ou o silêncio
mesmo se falo
- aqui del-rei!
Estudos de Literatura Portuguesa
Não sei se já alguma vez escrevi o que muitas vezes digo em conversa a amigos meus: o crítico não tem obrigação de ser o registo civil de quantas obras se publicam. De facto, essa obrigação que todos os autores reais ou virtuais lhe exigem, não tem. Mas tem o dever de sempre insinuar que poderá não haver lido tudo o que valia a pena, poderá não haver distinguido bem, ao ler, o que valia, e poderá em suma não propor outra justiça que a do seu gosto, da sua cultura, dos seus anseios.
domingo, 2 de março de 2008
Do Teatro em Portugal
Cabe, pois, a um teatro universitário dar o tom das ressurreições culturais, segundo os ventos mais actualizados da cultura; cabe-lhe , também, impor, com a sua autoridade, autores novos, julgando representativos, cujas peças podem até não ser, para nós, obras-primas, desde que essas peças pareçam significativas de tendências artísticas que, no teatro e pelo teatro, urge esclarecer. Tudo isto o teatro universitário pode fazer, com outros resultados teóricos e práticos que o teatro de amadores não atingirá nunca - porque o teatro de amadores abre-se da cultura para a vida, e um teatro universitário abre-se da vida para a cultura
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