Quinta-feira, 16 de Fevereiro de 2012

Brave New World

“He’s so ugly!” said Fanny.

“But I rather like his looks.”

“And then so small.” Fanny made a grimace; smallness was so horribly and typically low-caste.

“I think that’s rather sweet,” said Lenina. “One feels one would like to pet him. You know. Like a cat.”

Sábado, 4 de Fevereiro de 2012

History of Western Philosophy



People wish to think the universe good, and will be lenient to bad arguments proving that it is so, while bad arguments proving that it is bad are closely scanned. In fact, of course, the world is parly good and partly bad, and no 'problem of evil' arises unless this obvious fact is denied.

Terça-feira, 31 de Janeiro de 2012

De Republica



Assim como entre a cítara ou as flautas e o canto de vozes deve haver uma certa harmonia dos distintos sons sem a qual eles se tornam insuportáveis aos ouvidos entendidos pela sua confusão e discordância, ao passo que, graças ao equilíbrio de vozes diferentes, o concerto se torna harmonioso e concordante - assim também, concertando devidamente as diversas classes sociais altas, médias e baixas, como se fossem sons musicais e numa ordem racional, consegue a cidade realizar um concerto mediante o consenso das suas partes mais divergentes. O que os músicos chamam harmonia no canto, chama-se concórdia na cidade - o mais seguro e o melhor veículo para a segurança de todo o estado. E esta concórdia sem justiça é que não pode subsistir.


[A Cidade de Deus, Livro II, Cap. XXI]

Domingo, 15 de Janeiro de 2012

Uma Viagem à India - Canto VI

58

Porque há gente que aparenta sabedoria
em festas públicas mas, quando só, é de imediato conquistada
por alvoroços vários. É, pois, no sossego individual
de uma pessoa individual e calma
(em pleno centro de Lisboa, por exemplo)
que começa o sossego da Europa. Não lhe parece?

Reorganizar a sociedade

Uma opinião que erige a inconsequência em sistema e que conduz a impedir minuciosamente a extinção de duas doutrinas extremistas, porque lhe convém estar sempre a opor uma à outra, é opinião que forma necessariamente obstáculo à marcha do corpo social para o seu estado fixo e definitivo.

La invención de Morel

Stevenson, hacia 1882, anotó que los lectores británicos desdeñaban un poco las peripecias y opinaban que era muy hábil redactar una novela sin argumento, o de argumento infinitesimal, atrofiado. José Ortega y Gasset - La deshumanización del arte, 1925 - trata de razonar el desdén anotado por Stevenson y estatuye en la página 96, que "es muy dificil que hoy quepa inventar una aventura capaz de interesar a nuestra sensibilidad superior", y en la 97, que esa invención "es praticamente imposible". En otras páginas, en casi todas las páginas, aboga por la novela "psicológica" y opina que el placer de las aventuras es inexistente o pueril. Tal es, sin duda, el común parecer de 1882, 1925 y aun de 1940. Algunos escritores (entre los que place contar a Adolfo Bioy Casares) creen razonable disentir.

Prólogo de Jorge Luis Borges ao livro de Adolfo Bioy Casares

Terça-feira, 10 de Janeiro de 2012

O Adolescente

- Todos os Estados, simplesmente, apesar de «feitos todos os balanços orçamentais e dada a ausência de défices», se verão un beau matin, todos, numa atrapalhação definitiva e não irão querer pagar para, no meio daquela falência geral, se renovarem. Entretanto, todo o elemento conservador de todo o mundo se oporá a isso, porque será ele, justamente, o accionista e o credor, e não quererá admitir a bancarrota. Aqui começará, obviamente, a oxidação total, por assim dizer: virão muitos judeus e começará o reino dos judeus; em seguida, toda a gente, mesmo aqueles que nunca possuíram nada, isto é, todos os miseráveis, não quererão, naturalmente, participar nessa oxidação... Dar-se-á início a uma luta e, depois de setenta e sete derrotas, os miseráveis liquidarão os accionistas, tirar-lhes-ão as acções e ocuparão o seu lugar, como accionistas, evidentemente. Talvez tragam uma palavra nova, talvez não. O mais provável é que também vão à falência. A seguir, meu amigo, sou incapaz de prever seja o que for nos destinos que mudarão a face deste mundo. Aliás, podes sempre consultar o Apocalipse...

- Será tudo assim tão material? Será que o mundo actual vai ruir por causa apenas das finanças?

- Oh, é claro que referi só um cantinho do cenário geral, mas esse cantinho está ligado ao resto por laços, por assim dizer inquebrantáveis.

- Então, o que é preciso fazer?

- Oh, meu Deus, não tenhas pressa: isso tudo não vai acontecer tão cedo. De qualquer forma, de uma maneira geral, o melhor é não se fazer nada: assim, pelo menos, terás a tranquila consciência de não teres participado em nada.

Quarta-feira, 4 de Janeiro de 2012

O Adolescente




Não preciso do dinheiro, ou melhor, não é do dinheiro que preciso, nem do poder, aliás; preciso apenas do que se adquire com o poder e que é impossível adquirir sem o poder: a consciência solitária e calma da minha força! É esta a mais completa definição da liberdade, liberdade com que o nosso mundo anda a quebrar a cabeça! Liberdade! Escrevi, finalmente, esta grande palavra... Sim, a consciência solitária da força é fascinante e maravilhosa. Tenho força e estou calmo. Nas mãos de Júpiter estão os trovões - e então? Está calmo, não o ouvimos trovejar muitas vezes. A um parvo, parecerá que Júpiter dorme. Ora, se pusessem no lugar de Júpiter um literato ou uma campónia palerma, que trovões, credo, que trovões ouviríamos!

Se tivesse poder, raciocinava eu, nem sequer precisaria dele; asseguro-vos que eu próprio, por minha própria vontade, ocuparia o último lugar. Se fosse um Rothschild, usaria um sobretudo velhote e um guarda-chuva. Quereria lá saber que me empurrassem na rua, que fosse obrigado a correr aos saltinhos pela lama para não ser atropelado pelos cocheiros! A consciência de ser eu, eu Rothschild, alegrar-me-ia ainda mais nesses momentos. Saberia que poderia ter um almoço como ninguém e o primeiro cozinheiro do mundo, e bastar-me-ia sabê-lo. Comeria uma fatia de pão com toucinho e ficaria de consciência saciada. Já hoje penso assim.

Quinta-feira, 29 de Dezembro de 2011

Eneida

(Eneias Foge de Tróia em Chamas, Federico Barocci, 1598)


Poscant acies et foedera rumpant!


(Demande-se a peleja e rompam-se os pactos!)


Canto VIII, verso 540

Sábado, 24 de Dezembro de 2011

A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo

O autor destas linhas fez, no então território índio, uma longa viagem no mesmo compartimento com um negociante de negócios mortuários, a quem ouviu o seguinte comentário quando lhe referia a forte religiosidade, cada vez mais notória - «Senhor, cá por mim cada um pode ter ou não a sua crença conforme melhor lhe aprouver, mas quando vejo um agricultor ou um comerciante que não pertence a nenhuma igreja não lhe dou nem 50 cts. de crédito, e penso: por que razão há-de ele pagar-me se não acredita em nada?» Apesar de tudo, esta era apenas uma vaga motivação. A situação era mais clara a partir do relato de um especialista em otorrinolaringologia de origem alemã, instalado numa grande cidade perto de Ohio, que se referia à visita do seu primeiro cliente. Deitado no sofá a instâncias do médico, para ser observado ao nariz, ter-se-ia levantado de novo e notado com dignidade e ênfase: «Senhor, eu sou membro da 2.ª Igreja Baptista na rua X.» Desconhecendo o que tal facto poderia significar para o padecimento do nariz, o médico teria posto essa questão a um colega americano que lhe responderia, com um sorriso, que o significado seria apenas: «Não esteja preocupado com os honoráriosPorque razão teria a tal frase apenas aquele significado?

Terça-feira, 13 de Dezembro de 2011

George Bernard Shaw

I learned long ago, never to wrestle with a pig. You get dirty, and besides, the pig likes it.


Via Abrupto.

Domingo, 4 de Dezembro de 2011

Revista Única

Sou defensor da necessidade imperiosa da observação da memória histórica. O futuro está a ser construído hoje. É a nossa acção que está a produzir o que vai ser. Temos de incorporar a interacção fisica. Temos de pôr as pessoas a falar umas com as outras e não deixar que as pessoas sejam formatadas pela televisão das notícias descartáveis e a disponibilidade dos centros comerciais. As pessoas quando deixam de controlar a sua vida fogem da vida e esse é o perigo. Refugiam-se no rancor, no criticismo, nas imagens conservadoras do pastor. O fracasso do comunismo alternativo e a fraqueza da social democracia, que cedeu a tudo, contribuíram para isto. No princípio, o comunismo foi importante, deu direitos aos trabalhadores. Criou valores. Mas temos de incorporar outros pensamentos. Na universidade acusam-me de misturar o Max Weber com o Marx. O pensamento marxista mais puro erigiu a democracia como inimigo. Dizia Saramago que somos a memória que temos e a responsabilidade que assumimos. Sem memória não existimos e sem responsabilidade talvez não tenhamos direito a existir.

Uma Viagem à India - Canto VI

91

Bloom fora coerente.
Não se apressara demasiado a chegar à
Índia; a técnica e as máquinas são um engano:
tudo parece fácil, rápido, e os homens
apressam-se, esquecendo a biologia
que trazem e o modo orgânico como a própria sensatez cresce.
Bloom fora sensato. Em 2003 poderia demorar
menos de um dia a chegar à Índia, e demorou meses.
(Porém, nunca se tem idade suficiente para ir à Índia,
sempre existe, em qualquer europeu,
uma excessiva juventude.)

Quarta-feira, 30 de Novembro de 2011

Diários



A palavra, não a vejo, invento-a.

Terça-feira, 15 de Novembro de 2011

Carta a Niethammer




O trabalho teórico - estou cada vez mais convencido - alcança maior sucesso no mundo do que o trabalho prático. Uma vez revolucionado o reino da representação, a realidade não pode continuar a existir.

Domingo, 13 de Novembro de 2011

O Castelo

«Não tinhas aprendido em tempos o ofício de alfaiate?» perguntou a estalajadeira. «Não, nunca», disse K. «O que és tu afinal?» «Agrimensor.» «Isso o que é?» K. explicou, a explicação fez a estalajadeira bocejar. «Não estás a dizer a verdade. Porque não dizes a verdade?» «Tu também não dizes a verdade.» «Eu? Lá voltas tu com os teus desaforos. E se não digo a verdade, era a ti que havia de prestar contas? E em que não digo eu a verdade?» «Não és apenas estalajadeira como dás a entender.» «Vejam só, não paras de fazer novas descobertas. E o que sou eu então, para além de estalajadeira? As tuas insolências começam já a passar dos limites.» «Não sei. Vejo apenas que és estalajadeira e que além disso usas vestidos que uma estalajadeira não costuma usar e como aliás nunca vi aqui na aldeia ninguém usar.» «Ora bem, chegamos ao que interessa, não consegues ficar calado, talvez nem sejas descarado, és apenas como uma criança que sabe uma tolice qualquer e que ninguém consegue convencer a ficar em silêncio. Fala, então. O que têm estes vestidos de especial?» «Se eu disser, vais zangar-te.» «Não, hei-de rir, não serão mais do que tagarelices de criança. Como são então os vestidos?» «Já que queres saber, são vestidos de bom tecido, vestidos caros mas já fora de moda, muito cheios de pregas e folhos, muito remendados e coçados, e não são próprios para a tua idade, nem para a tua figura nem para a tua posição. Chamaram-me a atenção logo na primeira vez em que te vi aqui no vestíbulo há cerca de uma semana.» «É então assim que são. Fora de moda, muito cheios de pregas e folhos, e que mais era? E comos sabes tu tudo isso?» «Vejo. Para ver não precisamos de ser ensinados.» «Vês então sem ajuda. Não tens de perguntar a ninguém para saber o que está na moda. Ainda vou precisar de ti, é que eu tenho um fraco por vestidos bonitos. E o que dirás tu quando souberes que este armário está cheio de vestidos?» Abriu as portas de correr, os vestidos estavam cuidadosamente pendurados e alisados, ocupando o armário em toda a largura e profundidade, quase sem folga entre si, eram sobretudo em cores escuras, cinzentos, castanhos, pretos. «São os meus vestidos, todos eles fora de moda e muito cheios de pregas e folhos, como dizias. Mas são apenas aqueles que já não cabiam no meu quarto, lá em cima tenho ainda mais dois armários cheios, dois armários quase tão grandes como este. Surpreendido?» «Não, já esperava qualquer coisa assim, eu bem dizia, não és apenas estalajadeira, tens ainda outros planos.» «O que eu quero é apenas vestir-me bem, e tu és louco ou és uma criança ou és um homem mau e perigoso. Vai, agora vai!»

Domingo, 6 de Novembro de 2011

Perdoa-me, mãe

Perdoa-me, mãe,
por te ter deixado ficar
viúva por toda a vida
velha, só.

Era matar ou morrer
e tu tiveste-me, seja como for:
O sangue congela ao toque de um amante
As entranhas dissolvem-se em merda.

Nunca fui jovem.
Agora estou velha, só.

Em sonhos
fustigo-te.

Terça-feira, 1 de Novembro de 2011

Titus Andronicus

LUCIUS

[...]

My scars can witness, dumb although they are,
That my report is just and full of truth.
But, soft! methinks I do digress to much,
Citing my worthless praise: O, pardon me;
For when no friends are by, men praise themselves.

(Act V. Scene III)

Sábado, 8 de Outubro de 2011

Educação Médica

He who studies medicine without books sails an uncharted sea, but he who studies medicine without patients does not go to sea at all.

Segunda-feira, 3 de Outubro de 2011

Ao pé da letra

Sigamos Valter Hugo Mãe, se quisermos ver em funcionamento, sem hesitações nem álibis, a máquina de destruir escritores. A engrenagem subiu ao palco, sob a forma de tragicomédia, no festival de Paraty, de onde saiu uma personagem grotesca que se oferece em espectáculo numa representação de cabaré, amplificada por aplausos emocionados de espectadores que gostam do teatro das emoções e acham que um escritor é tanto melhor quanto mais escreve como respira, isto é, como mente. A maquinação continuou por conta da editora, que tem os seus dispositivos de destruição afinados pela cega engenharia de promoção de produtos editoriais. Finalmente, a grande engenhoca do lançamento, para a qual se convocou o mais respeitável construtor da nossa democracia para a tarefa de mobilização nacional em torno do escritor, coroou este percurso pelo qual um romance passa a ter um destino extraliterário. A ideia que está na base é a de que a literatura precisa de ser dissimulada e integrada nos mecanismos espectaculares para ter sucesso. Terminada a festa da destruição do escritor, fica o objecto desamparado do romance, no meio dos destroços. Quem, por dever do ofício, por curiosidade ou porque não se pode subtrair à 'actualidade', assistiu aos actos preparatórios da implosão, só tem um desejo, que, a cumprir-se, proporcionaria o júbilo pérfido da vingança: que o romance se erga acima do seu autor, apesar dele, ignorando os seus desvarios e as engenhocas promocionais de destruir escritores. Infelizmente, o desejo não se cumpre, o júbilo perverso fica adiado e o dito romance, tão patético como a engrenagem destrutiva que preparou o seu aparecimento, faz-nos passar por aquela experiência muito embaraçosa de sentir a vergonha que caberia ao outro. Nem um deus, quando mais um filho, o pode salvar.

Sexta-feira, 30 de Setembro de 2011

Areopagítica

Platão, que era de facto um homem de grande autoridade, que não lhe adveio decerto da sua República, no livro das Leis, que nenhuma cidade adoptou ainda, deu largas à sua fantasia, elaborando uma série de decretos para os seus petulantes burgomestres, que aqueles que em tudo o mais o admiram prefeririam desculpar como resultado de alguma noite de farra na Academia. A julgar por essas leis, Platão parecia não tolerar qualquer tipo de conhecimento para além do imutavelmente estabelecido, constituído sobretudo por tradições práticas, e para a aprendizagem do qual uma biblioteca de menos volume que os seus próprios Diálogos seria mais do que suficiente. E decretava também que nenhum poeta pudesse sequer ler os seus escritos a um cidadão particular antes de os juízes e os agentes da lei os terem examinado e permitido. Mas é evidente que Platão comcebeu esta lei especificamente para a República que imaginara e para nenhuma outra. Caso contrário, por que não aplicaria ele as suas leis a si mesmo, comportando-se como um transgressor que deveria ser expulso pelos seus próprios magistrados, tanto pela ousadia dos diálogos e epigramas que escreveu como pela sua constante leitura de Sófon Mimo e Aristófanes, autores da mais declarada infâmia, tendo inclusivamente recomendado a leitura do segundo - e não obstante ser ele um malicioso difamador dos seus melhores amigos - ao tirano Dionísio, que não precisava de semenlhante lixo para preencher os tempos livres? Mas Platão sabia que esta censura dos poemas estava intimamente relacionada com - e dependente de - muitas outras regras previstas para a sua república imaginária, que não poderia ter lugar neste mundo; e daí que nem ele nem nenhum outro magistrado ou cidade tenham alguma vez adoptado essa prática que, isolada de outras normas conexas, se revelaria forçosamente vã e infrutífera. Pois se o rigor recaísse apenas sobre uma matéria, sem demonstrarem idêntico zelo em regulamentar todas as outras coisas igualmente susceptíveis de corromper a mente, esse esforço isolado não passaria, como bem sabiam, de um trabalho inútil - seria o mesmo que fechar e reforçar uma portada contra a corrupção, deixando as outras ao lado totalmente escancaradas.

Quarta-feira, 28 de Setembro de 2011

A Morgadinha dos Canaviais

- Pois sim: mas não deve meter-se a falar em coisas que não entende. As estradas não servem para nada! As estradas são meios de comunicação e... facilitam o... o... tráfego comercial e aumentam por conseguinte a riqueza das nações... Porque o trabalho representa um capital... sim, senhores, mas... mas um capital que... não vive... Quero dizer... sim... suponhamos: o crédito por exemplo... O crédito... sim... aí está o crédito... Pois que é o crédito?... O crédito é... é o crédito... depende de muitas coisas... Por outra, suponhamos... se nós não tivéssemos estradas... Uma suposição... Partamos de um princípio. A produção excede o consumo... Quero mesmo que o consumo exceda a produção... Sim, quero mesmo isso... Muito bem... Daí que resulta? Está claro que um desequilíbrio. E depois?... Depois, boas noites... Não havendo estradas... Aí está que se diz por aí que a livre exportação, que tal, que sim senhores... mais isto, mais aquilo... Pois não é assim. É preciso que se atenda também às condições económicas dos povos. Sim... eu digo: O comércio deve ser livre... Muito bem... Em termos já se sabe... Mas... o comércio livre... a livre troca... entendamo-nos... É preciso clareza de ideias... Quando eu digo que... Ora suponhamos... suponhamos que não havia estradas... Os transportes eram mais difíceis e portanto mais caros... E, se, além disso, os géneros fossem escassos, e... Diz vossemecê: para que servem as estradas? Ora diga-me uma coisa, sr. Manuel: suponhamos que... os impostos indirectos... Sempre queria que me dissesse o que havia de fazer?

- Impostos, Deus me livre deles! - murmurou o lavrador, cujos instintos trepidaram à palavra «impostos».

- Isso também não é assim... Deus me livre! Não se diz «Deus me livre», porque a riqueza... a riqueza... sim, a riqueza não está na terra... isto é, a riqueza está na terra... mas é preciso o capital para a exploração... Percebe?... Ou... suponhamos... por exemplo... Não... vamos cá por outro lado... Há um deficit num orçamento... desce o preço das inscrições... Ora bem... Mas... suponhamos que há boas estradas, et cetera... A riqueza tende a aumentar... e... e... Enfim, lá que as estradas são úteis, isso é que não tem questão.

Terça-feira, 20 de Setembro de 2011

Hipérion ou o Eremita da Grécia

Hipérion na Travessia até Caláuria (Rudolf Lohbauer), 1824.




É cruel, Diotima, exclamei eu, ferir assim o coração, atar-me assim ao meu próprio temor da morte, à minha mais nobre alegria de viver, mas não! não! não! a escravidão mata, mas a guerra justa vivifica todas as almas. Atirar ao fogo o ouro dá-lhe a cor do sol! Isso, isso é a primeira coisa a dar ao homem toda a sua juventude: quebrar cadeias! A única coisa que o salva é pôr-se a caminho e esmagar a víbora, o século rastejante que envenena toda a bela natureza no seu gérmen! Hei-de envelhecer, Diotima, se libertar a Grécia? hei-de envelhecer, empobrecer, tornar-me um homem vil? Oh, assim o jovem ateniense devia ser bastante insípido e oco e abandonado pelos deuses quando veio como mensageiro da vitória de Maratona pelos cumes do Pentélico olhando para baixo onde ficavam os vales de Ática!

Quarta-feira, 14 de Setembro de 2011

The Aliens

you may not believe it
but there are people
who go through life with
very little
friction of distress
they dress well sleep well
they are contended with
their family
life
they are undisturbed
and often feel
very good
and when they die
it is an easy death usually in their
sleep

you may not believe
it
but such people do
exist

but i am not one of
them
oh no, I am not one of them
I am not even near
to being
one of
them.
but they
are there

and I am
here

Sábado, 10 de Setembro de 2011

Werther

12 de Agosto

Vós outros homens - exclamei para mim -, não podeis falar de nada sem dizer primeiro: Isto é louco, aquilo é prudente, isto é bom, aquilo é mau! O que é que isso quer dizer? Já profundastes os verdadeiros motivos de uma acção? Já distinguistes as razões que as provocaram? Se tivésseis feito isto, não seríeis tão prontos nas vossas apreciações.