quarta-feira, 22 de março de 2017

Sísifo

Recomeça....

Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças...

terça-feira, 21 de março de 2017

All the world's a stage

All the world's a stage,
And all the men and women merely players;
They have their exits and their entrances,
And one man in his time plays many parts,
His acts being seven ages. At first, the infant,
Mewling and puking in the nurse's arms.
Then the whining schoolboy, with his satchel
And shining morning face, creeping like snail
Unwillingly to school. And then the lover,
Sighing like furnace, with a woeful ballad
Made to his mistress' eyebrow. Then a soldier,
Full of strange oaths and bearded like the pard,
Jealous in honor, sudden and quick in quarrel,
Seeking the bubble reputation
Even in the cannon's mouth. And then the justice,
In fair round belly with good capon lined,
With eyes severe and beard of formal cut,
Full of wise saws and modern instances;
And so he plays his part. The sixth age shifts
Into the lean and slippered pantaloon,
With spectacles on nose and pouch on side;
His youthful hose, well saved, a world too wide
For his shrunk shank, and his big manly voice,
Turning again toward childish treble, pipes
And whistles in his sound. Last scene of all,
That ends this strange eventful history,
Is second childishness and mere oblivion,
Sans teeth, sans eyes, sans taste, sans everything. 

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

The Empty Space

In all communication, illusions materialize and disappear. The Brecht theatre is a rich compound of images appealing for our belief. When Brecht spoke contemptuously of illusion, this was not what he was attacking. He meant the single sustained Picture, the statement that continued after its purpose had been served—like the painted tree. But when Brecht stated there was something in the theatre called illusion, the implication was that there was something else that was not illusion. So illusion became opposed to reality. It would be better if we clearly opposed dead illusion to living illusion, glum statement to lively statement, fossilized shape to moving shadow, the frozen picture to the moving one. What we see most often is a character inside a picture frame surrounded by a threewalled interior set. This is naturally an illusion, but Brecht suggests we watch it in a state of anaesthetized uncritical belief. If, however, an actor stands on a bare stage beside a placard reminding us that this is a theatre, then in basic Brecht we do not fall into illusion, we watch as adults—and judge. This division is neater in theory than in practice. 

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

The Empty Space

In Mexico, before the wheel was invented, gangs of slaves had to carry giant stones through the jungle and up the mountains, while their children pulled their toys on tiny rollers. The slaves made the toys, but for centuries failed to make the connection. When good actors play in bad comedies or second-rate musicals, when audiences applaud indifferent classics because they enjoy just the costumes or just the way the sets change, or just the prettiness of the leading actress, there is nothing wrong. But none the less, have they noticed what is underneath the toy they are dragging on a string? It’s a wheel. 

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

The Empty Space

For instance, a critic is always serving the theatre when he is hounding out incompetence. If he spends most of his time grumbling, he is almost always right. The appalling difficulty of making theatre must be accepted: it is, or would be, if truly practised, perhaps the hardest medium of all: it is merciless, there is no room for error, or for waste. A novel can survive the reader who skips pages, or entire chapters; the audience, apt to change from pleasure to boredom in a wink can be lost, irrevocably.

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

The Empty Space

All through the world theater audiences are dwindling. There are occasional new movements, good new writers and so on, but as a whole, the theater not only fails to elevate or instruct, it hardly even entertains.

sábado, 3 de dezembro de 2016

Gosto disto aqui

Quando o barco fez escala em Cherbourg, Bowen estava sentado no chão, meio embriagado, tentando ler This Rough Magic. Tinha chegado à página 188, altura em que o autor parecia ter ido tentar descobrir qual era a situação inicial que se propusera desenvolver.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Gosto disto aqui

Portugal é um belo sítio. Um tio meu foi lá há um ou dois anos e conseguiu estar permanentemente bebâdo por cerca de dez xelins diários.

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Receita de mulher

As muito feias que me perdoem 
Mas beleza é fundamental. É preciso 
Que haja qualquer coisa de flor em tudo isso 
Qualquer coisa de dança, qualquer coisa de haute couture 
Em tudo isso (ou então 
Que a mulher se socialize elegantemente em azul, como na República Popular Chinesa). 
Não há meio-termo possível. É preciso 
Que tudo isso seja belo. É preciso que súbito 
Tenha-se a impressão de ver uma garça apenas pousada e que um rosto 
Adquira de vez em quando essa cor só encontrável no terceiro minuto da aurora. 
É preciso que tudo isso seja sem ser, mas que se reflita e desabroche 
No olhar dos homens. É preciso, é absolutamente preciso 
Que seja tudo belo e inesperado. É preciso que umas pálpebras cerradas 
Lembrem um verso de Éluard e que se acaricie nuns braços 
Alguma coisa além da carne: que se os toque 
Como o âmbar de uma tarde. Ah, deixai-me dizer-vos 
Que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro 
Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e 
Seja leve como um resto de nuvem: mas que seja uma nuvem 
Com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo. Olhos, então 
Nem se fala, que olhem com certa maldade inocente. Uma boca 
Fresca (nunca úmida!) é também de extrema pertinência. 
É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos 
Despontem, sobretudo a rótula no cruzar as pernas, e as pontas pélvicas 
No enlaçar de uma cintura semovente. 
Gravíssimo é porém o problema das saboneteiras: uma mulher sem saboneteiras 
É como um rio sem pontes. Indispensável 
Que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida 
A mulher se alteia em cálice, e que seus seios 
Sejam uma expressão greco-romana, mais que gótica ou barroca 
E possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima de cinco velas. 
Sobremodo pertinaz é estarem a caveira e a coluna vertebal 
Levemente à mostra; e que exista um grande latifúndio dorsal! 
Os membros que terminem como hastes, mas bem haja um certo volume de coxas 
E que elas sejam lisas, lisas como a pétala e cobertas de suavíssima penugem 
No entanto sensível à carícia em sentido contrário. 
É aconselhável na axila uma doce relva com aroma próprio 
Apenas sensível (um mínimo de produtos farmacêuticos!) 
Preferíveis sem dúvida os pescoços longos 
De forma que a cabeça dê por vezes a impressão 
De nada ter a ver com o corpo, e a mulher não lembre 
Flores sem mistério. Pés e mãos devem conter elementos góticos 
Discretos. A pele deve ser fresca nas mãos, nos braços, no dorso e na face 
Mas que as concavidades e reentrâncias tenham uma temperatura nunca inferior 
A 37º centígrados, podendo eventualmente provocar queimaduras 
Do primeiro grau. Os olhos, que sejam de preferência grandes 
E de rotação pelo menos tão lenta quanto a da terra; e 
Que se coloquem sempre para lá de um invisível muro de paixão 
Que é preciso ultrapassar. Que a mulher seja em princípio alta 
Ou, caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros. 
Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que se se fechar os olhos 
Ao abri-los ela não mais estará presente 
Com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá 
E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer beber 
O fel da dúvida. Oh, sobretudo 
Que ela não perca nunca, não importa em que mundo 
Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade 
De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma 
Transforme-se em fera sem perder sua graça de ave; e que exale sempre 
O impossível perfume; e destile sempre 
O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto 
Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina 
Do efêmero; e em sua incalculável imperfeição 
Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável.

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Carta aos puros

Ó vós, homens sem sol, que vos dizeis os Puros 
E em cujos olhos queima um lento fogo frio 
Vós de nervos de nylon e de músculos duros 
Capazes de não rir durante anos a fio. 

Ó vós, homens sem sal, em cujos corpos tensos 
Corre um sangue incolor, da cor alva dos lírios 
Vós que almejais na carne o estigma dos martírios 
E desejais ser fuzilados sem o lenço. 

Ó vós, homens iluminados a néon 
Seres extraordinariamente rarefeitos 
Vós que vos bem-amais e vos julgais perfeitos 
E vos ciliciais à idéia do que é bom. 

Ó vós, a quem os bons amam chamar de os Puros 
E vos julgais os portadores da verdade 
Quando nada mais sois, à luz da realidade, 
Que os súcubos dos sentimentos mais escuros. 

Ó vós que só viveis nos vórtices da morte 
E vos enclausurais no instinto que vos ceva 
Vós que vedes na luz o antônimo da treva 
E acreditais que o amor é o túmulo do forte. 

Ó vós que pedis pouco à vida que dá muito 
E erigis a esperança em bandeira aguerrida 
Sem saber que a esperança é um simples dom da vida 
E tanto mais porque é um dom público e gratuito. 

Ó vós que vos negais à escuridão dos bares 
Onde o homem que ama oculta o seu segredo 
Vós que viveis a mastigar os maxilares 
E temeis a mulher e a noite, e dormis cedo. 

Ó vós, os curiais; ó vós, os ressentidos 
Que tudo equacionais em termos de conflito 
E não sabeis pedir sem ter recurso ao grito 
E não sabeis vencer se não houver vencidos. 

Ó vós que vos comprais com a esmola feita aos pobres 
Que vos dão Deus de graça em troca de alguns restos 
E maiusculizais os sentimentos nobres 
E gostais de dizer que sois homens honestos. 

Ó vós, falsos Catões, chichisbéus de mulheres 
Que só articulais para emitir conceitos 
E pensais que o credor tem todos os direitos 
E o pobre devedor tem todos os deveres. 

Ó vós que desprezais a mulher e o poeta 
Em nome de vossa vã sabedoria 
Vós que tudo comeis mas viveis de dieta 
E achais que o bem do alheio é a melhor iguaria. 

Ó vós, homens da sigla; ó vós, homens da cifra 
Falsos chimangos, calabares, sinecuros 
Tende cuidado porque a Esfinge vos decifra... 
E eis que é chegada a vez dos verdadeiros puros.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Sobre Abraços Desfeitos

É um "trailer" óptimo, completamente a contra-corrente do que é norma hoje em dia, quando os "trailers", sobretudo os dos filmes americanos, praticamente se esgotam num resumo acelerado da intriga do filme. Empobrecem-lhes o mistério, reduzindo-o à questão do "desfecho", como se tudo o que se propusesse ao espectador fosse ir ver o filme para saber "como acaba" o que já lhe foi contado no "trailer" (enfim, os brados indignados de "spoiler! spoiler!" por essa Internet fora sempre que um texto refere pormenores decisivos do desenlace de um filme emanam desta, chamemos-lhe, "cultura").

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

O terceiro Reich

Ao acordar encontro Clarita no quarto, está aos pés da cama com a sua farda de empregada de quartos, a olhar para mim. Não sei porque é que a sua presença me faz feliz. Sorrio-lhe e peço-lhe que se meta na cama comigo, embora sem me aperceber o faça em alemão. De que maneira é que Clarita me entende é um mistério, a verdade é que, prudentemente, primeiro fecha a porta por dentro e depois encolhe-se ao meu lado, sem tirar nada, apenas os sapatos. Tal como no nosso encontro anterior, a sua boca cheira a tabaco negro, o que se torna muito atractivo numa mulherzinha como ela. Segundo a tradição, dos seus lábios deveria desprender-se um gosto a chouriço e alhos ou a pastilha de mentol. Alegro-me que não seja assim.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Poética

De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
— Meu tempo é quando.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

A rosa de Hiroxima

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroxima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A antirrosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada.

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Afabulação

FILHO

Claro que dirão! E não só
os velhos burgueses, mas também os jovens
revolucionários. São todos de
uma mesma raça: a raça que avalia o que se faz
pela sua utilidade. Se alguém, rindo ou chorando,
num mundo onde não se pode rir
e não se deve chorar, é, para ele, um empecilho,
sabes o que dizem? Dizem assim: Para que serve?

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Seis personagens em busca de autor

O PAI
(...) Senhor, todos nós - cá fora, diante dos outros - estamos cobertos de dignidade: mas dentro de nós, sabemos bem o que se passa na nossa intimidade, inconfessável. Se cedemos, cedemos à tentação, para logo depois nos reerguermos, talvez com uma grande pressa de recompor inteira e sólida, como uma pedra sobre um túmulo, a nossa dignidade, que esconde e sepulta aos nossos próprios olhos qualquer sinal e a própria lembrança da vergonha.

quinta-feira, 30 de junho de 2016

Afabulação

Dois homens quaisquer.
Porque, como homem, ele não é muito melhor do que eu,
tem as mesmas incertezas,
é um filho igual ao pai,
no fundo já velho, como todos
os filhos de pais autoritários.

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Afabulação

PRÓLOGO

SOMBRA DE SÓFOCLES
Quem vos fala é a sombra de Sófocles.
Estou aqui arbitrariamente destinado a inaugurar
uma linguagem demasiado difícil e demasiado fácil:
difícil para os espectadores de uma sociedade
num péssimo momento da sua história,
fácil para os poucos leitores de poesia.
Habituem os ouvidos.
Basta.

quinta-feira, 2 de junho de 2016

A balada de Pedro Nava

II

A moça dizia à lua
Minha carne é cor-de-rosa
Não é verde como a tua
Eu sou jovem e formosa.
Minhas maminhas - a moça
À lua mostrava as suas - 
Têm a brancura da louça
Não são negras como as tuas
E ela falava: Meu ventre
É puro - e o deitava à lua
A lua que o sangra dentro
Quem haverá que a possua?
Meu sexo - a moça jogada
Entreabria-se nua -
É o sangue da madrugada
Na triste noite sem lua.
Minha pele é viva e quente
Lança o teu raio mais frio
Sobre o meu corpo inocente
Sente o teu como é vazio.

domingo, 29 de maio de 2016

O desespero da piedade

Meu senhor, tende piedade dos que andam de bonde
E sonham no longo percurso com automóveis, apartamentos…
Mas tende piedade também dos que andam de automóvel
Quando enfrentam a cidade movediça de sonâmbulos, na direção.
Tende piedade das pequenas famílias suburbanas
E em particular dos adolescentes que se embebedam de domingos
Mas tende mais piedade ainda de dois elegantes que passam
E sem saber inventam a doutrina do pão e da guilhotina.
Tende muita piedade do mocinho franzino, três cruzes, poeta
Que só tem de seu as costeletas e a namorada pequenina
Mas tende mais piedade ainda do impávido forte colosso do esporte
E que se encaminha lutando, remando, nadando para a morte.
Tende imensa piedade dos músicos dos cafés e casas de chá
Que são virtuoses da própria tristeza e solidão
Mas tende piedade também dos que buscam silêncio
E súbito se abate sobre eles uma ária da Tosca.
Não esqueçais também em vossa piedade os pobres que enriqueceram
E para quem o suicídio ainda é a mais doce solução
Mas tende realmente piedade dos ricos que empobreceram
E tornam-se heróicos e à santa pobreza dão um ar de grandeza.
Tende infinita piedade dos vendedores de passarinhos
Que em suas alminhas claras deixam a lágrima e a incompreensão
E tende piedade também, menor embora, dos vendedores de balcão
Que amam as freguesas e saem de noite, quem sabe onde vão…
Tende piedade dos barbeiros em geral, e dos cabeleireiros
Que se efeminam por profissão mas que são humildes nas suas carícias
Mas tende mais piedade ainda dos que cortam o cabelo:
Que espera, que angústia, que indigno, meu Deus!
Tende piedade dos sapateiros e caixeiros de sapataria
Que lembram madalenas arrependidas pedindo piedade pelos sapatos
Mas lembrai-vos também dos que se calçam de novo
Nada pior que um sapato apertado, Senhor Deus.
Tende piedade dos homens úteis como os dentistas
Que sofrem de utilidade e vivem para fazer sofrer
Mas tende mais piedade dos veterinários e práticos de farmácia
Que muito eles gostariam de ser médicos, Senhor.
Tende piedade dos homens públicos e em particular dos políticos
Pela sua fala fácil, olhar brilhante e segurança dos gestos de mão
Mas tende mais piedade ainda dos seus criados, próximos e parentes
Fazei, Senhor, com que deles não saiam políticos também.
E no longo capítulo das mulheres, Senhor, tende píedade das mulheres
Castigai minha alma, mas tende piedade das mulheres
Enlouquecei meu espírito, mas tende piedade das mulheres
Ulcerai minha carne, mas tende piedade das mulheres!
Tende piedade da moça feia que serve na vida
De casa, comida e roupa lavada da moça bonita
Mas tende mais piedade ainda da moça bonita
Que o homem molesta - que o homem não presta, não presta, meu Deus!
Tende piedade das moças pequenas das ruas transversais
Que de apoio na vida só têm Santa Janela da Consolação
E sonham exaltadas nos quartos humildes
Os olhos perdidos e o seio na mão.
Tende piedade da mulher no primeiro coito
Onde se cria a primeira alegria da Criação
E onde se consuma a tragédia dos anjos
E onde a morte encontra a vida em desintegração.
Tende piedade da mulher no instante do parto
Onde ela é como a água explodindo em convulsão
Onde ela é como a terra vomitando cólera
Onde ela é como a lua parindo desilusão.
Tende piedade das mulheres chamadas desquitadas
Porque nelas se refaz misteriosamente a virgindade
Mas tende piedade também das mulheres casadas
Que se sacrificam e se simplificam a troco de nada.
Tende piedade, Senhor, das mulheres chamadas vagabundas
Que são desgraçadas e são exploradas e são infecundas
Mas que vendem barato muito instante de esquecimento
E em paga o homem mata com a navalha, com o fogo, com o veneno.
Tende piedade, Senhor, das primeiras namoradas
De corpo hermético e coração patético
Que saem à rua felizes mas que sempre entram desgraçada
Que se crêem vestidas mas que em verdade vivem nuas.
Tende piedade, Senhor, de todas as mulheres
Que ninguém mais merece tanto amor e amizade
Que ninguém mais deseja tanto poesia e sinceridade
Que ninguém mais precisa tanto de alegria e serenidade.
Tende infinita piedade delas, Senhor, que são puras
Que são crianças e são trágicas e são belas
Que caminham ao sopro dos ventos e que pecam
E que têm a única emoção da vida nelas.
Tende piedade delas, Senhor, que uma me disse
Ter piedade de si mesma e de sua louca mocidade
E outra, à simples emoção do amor piedoso
Delirava e se desfazia em gozos de amor de carne.
Tende piedade delas, Senhor, que dentro delas
A vida fere mais fundo e mais fecundo
E o sexo está nelas, e o mundo está nelas
E a loucura reside nesse mundo.
Tende piedade, Senhor, das santas mulheres
Dos meninos velhos, dos homens humilhados - sede enfim
Piedoso com todos, que tudo merece piedade
E se piedade vos sobrar, Senhor, tende piedade de mim

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Nossa Senhora de Paris

De resto, como ainda hoje sucede, o público preocupava-se mais com os trajes das personagens do que com os próprios papéis; e, diga-se em verdade, não era sem razão.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Balada de Pedro Nava

I

Meu amigo Pedro Nava 
Em que navio embarcou: 
A bordo do Westphalia 
Ou a bordo do Lidador

Em que antárticas espumas 
Navega o navegador 

Em que brahmas, em que brumas 
Pedro Nava se afogou? 

Juro que estava comigo 
Há coisa de não faz muito 
Enchendo bem a caveira 
Ao seu eterno defunto. 

Ou não era Pedro Nava 
Quem me falava aqui junto 
Não era o Nava de fato 
Nem era o Nava defunto?... 

Se o tivesse aqui comigo 
Tudo se solucionava 
Diria ao garçom: Escanção! 
Uma pedra a Pedro Nava! 

Uma pedra a Pedro Nava 
Nessa pedra uma inscrição: 
"- deste que muito te amava 
teu amigo, teu irmão..." 


Mas oh, não! que ele não morra 
Sem escutar meu segredo 
Estou nas garras da Cachorra 
Vou ficar louco de medo 

Preciso muito falar-lhe 
Antes que chegue amanhã: 
Pedro Nava, meu amigo 
DESCEU O LEVIATÃ! 

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Admirável mundo novo

O Hospita para Moribundos de Park Lane era uma torre de sessenta andares de blocos cerâmicos cor de primavera. Quando o Selvagem descia do seu taxicóptero, um comboio de carros fúnebres aéreos, de cores alegres, levantou vôo, zumbinco, do terraço, e deslizou sobre o parque, para oeste, com rumo ao crematório de Slough. À porta do elevador, o chefe dos porteiros deu-çhe as informações necessárias e ele desceu à sala 81 (uma sala para senilidade galopante, explicou o porteiro), no décimo sétimo andar.
Era um vasto aposento, que o sol e a pintura amarela tornavam claro, contendo vinte leitos, todos ocupados. Linda morria acompanhada - acompanhada e com todo o conforto moderno. O ar era constantemente vivificado por alegres melodias sintéticas. Junto de cada leito, diante do ocupante moribundo, havia um receptor de televisão. Deixava-se a televisão, como se fosse uma torneira aberta, de manhã à noite.