Lá quando em mim perder a humanidade
Mais um daqueles, que não fazem falta,
Verbi-gratia – o teólogo, o peralta,
Algum duque, ou marquês, ou conde, ou frade:
Não quero funeral comunidade,
que engrole sob-venites em voz alta;
Pingados gatarrões, gente de malta,
Eu também vos dispenso a caridade:
Mas quando ferrugenta enxada idosa
Sepulcro me cavar em ermo outeiro,
Lavre-me este epitáfio mão piedosa:
"Aqui dorme Bocage, o putanheiro:
Passou a vida folgada, e milagrosa:
Comeu, bebeu, fodeu sem ter dinheiro."
segunda-feira, 16 de Novembro de 2009
O Lado de Guermantes
É verdade que dizemos que a hora da morte é incerta, mas quando dizemos isso imaginamos essa hora como situada num espaço vago e longínquo, não pensamos que ela tenha qualquer relação com o dia já começado e possa significar que a morte - ou a sua primeira tomada de posse de nós, após o que nunca mais nos largará - poderá acontecer nesta mesma tarde, tão pouco incerta, nesta tarde em que a ocupação de todas as horas está antecipadamente regulada. As pessoas insistem no sei passeio para terem dentro de um mês todo o bom ar de que necessitam, hesitaram na escolha de um casacão a levar, do cocheiro a chamar, vão de carro, têm o dia inteiro à sua frente, curto, porque querem regressar a tempo de receber uma amiga; desejam que amanhã também faça bom tempo; e não duvidam de que a morte que caminhava dentro delas noutro plano, no meio de uma impenetrável escuridão, escolheu precisamente aquele dia para entrar em cena, daí a alguns minutos, mais ou menos no momento em que o carro chegar aos Campos Elísios. Talvez aqueles que vivem habitualmente obsediados pelo pavor da singularidade própria da morte achem algo de tranquilizador nesse género de morte - nesse género de primeiro contacto com a morte -, porque aí ele reveste uma aparência conhecida, familiar, quotidiana. Foi precedida de um bom almoço e do memso passeio das pessoas de boa saúde.
domingo, 8 de Novembro de 2009
Caim
Perguntou Isaac, Pai, que mal te fiz eu para teres querido matar-me, a mim que sou o teu único filho, Mal não me fizeste, isaac, Então por que quiseste cortar-me a garganta como se eu fosse um borrego, perguntou o moço, se não tivesse aparecido aquele homem para segurar-te o braço, que o senhor o cubra de bençãos, estarias agora a levar um cadáver para casa, A ideia foi do senhor, que queria tirar a prova, A prova de quê, Da minha fé, da minha obediência, E que senhor é esse que ordena a um pai que mate o seu próprio filho, É o senhor que temos, o senhor dos nossos antepassados, o senhor que já cá estava quando nascemos, E se esse senhor tivesse um filho, também o mandaria matar, perguntou isaac, O futuro o dirá, Então o senhor é capaz de tudo, do bom, do mau e do pior, Assim é, Se tu tivesses desobedecido à ordem, que sucederia, perguntou isaac, O costume do senhor é mandar a ruína ou uma doença a quem lhe falhou, Então o senhor é rancoroso, Acho que sim, respondeu abrãao em voz baixa, como se temesse ser ouvido, ao senhor nada é impossível.
Caim
O leitor leu bem, o senhor ordenou a abraão que lhe sacrificasse o próprio filho, com a maior simplicidade o fez, como quem pede um copo de água quando tem sede, o que significa que era costume seu, e muito arraigado. O lógico, o natural, o simplesmente humano seria que abrãao tivesse mandado o senhor à merda, mas não foi assim.
Caim
A eva e adão ainda restava a possibilidade de gerarem um filho para compensar a perda do assassinado, mas bem triste há-de ser a gente sem outra finalidade na vida que a de fazer filhos sem saber porquê nem para quê.
domingo, 11 de Outubro de 2009
Sobre Abraços Desfeitos
É um "trailer" óptimo, completamente a contra-corrente do que é norma hoje em dia, quando os "trailers", sobretudo os dos filmes americanos, praticamente se esgotam num resumo acelerado da intriga do filme. Empobrecem-lhes o mistério, reduzindo-o à questão do "desfecho", como se tudo o que se propusesse ao espectador fosse ir ver o filme para saber "como acaba" o que já lhe foi contado no "trailer" (enfim, os brados indignados de "spoiler! spoiler!" por essa Internet fora sempre que um texto refere pormenores decisivos do desenlace de um filme emanam desta, chamemos-lhe, "cultura").
segunda-feira, 5 de Outubro de 2009
Writing
I know nothing in the world
that has as much power as a word.
Sometimes I write one, and I
look at it, until it begins to shine.
that has as much power as a word.
Sometimes I write one, and I
look at it, until it begins to shine.
A Náusea
Em 1787, numa estalem perto de Moulins, estava a morrer um velho, amigo de Diderot, formado pelos filósofos. Os padres das redondezas estavam extenuados: tinham tentado tudo em vão; o homenzinho recusava os últimos sacramentos. O Sr. de Rollebon, que passou por ali e que não acreditava em nada, apostou com o pároco de Moulins que, em menos de duas horas, seria capaz de converter o doente aos sentimentos cristãos. O pároco aceitou a aposta, e perdeu: atacado às três horas da manhã, o doente confessou-se às cinco e morreu às sete. «Sois, na verdade, muito forte na arte da controvérsia», reconheceu o pároco; «levais a palma aos nossos!» «Não controverti», respondeu o Sr. de Rollebon, «meti-lhe medo com o Inferno.»
A importância política do voto nulo
Os votos brancos caíram 4544 votos, enquanto os nulos subiram de 65515 votos para 74274, o que significa um importante aumento de 8759 votos. Sem fazer campanha, sem dinheiro do Estado para propaganda, sem tempos de antena, a obscenidade democrática vai trilhando o seu caminho, subindo paulatinamente, sufrágio após sufrágio.
quarta-feira, 30 de Setembro de 2009
Considerações
Poucas serão as escolas em que o mestre não anime entre os alunos o espírito de emulação; aos mais atrasados apontam-se os que avançaram como marcos a atingir e ultrapassar; e aos que ocuparam os primeiros lugares servem os do fim da classe de constantes esporas que os não deixam demorar-se no caminho, cada um se vigia a si e aos outros e a si próprio apenas na medida em que se estabelece um desnível com o companheiro que tem de superar ou de evitar.
A mesquinhez de uma vida em que os outros não aparecem como colaboradores, mas como inimigos, não pode deixar de produzir toda a surda inveja, toda a vaidade, todo o despeito que se marcam em linhas principais na psicologia dos estudantes submetidos a tal regime; nenhum amor ao que se estuda, nenhum sentimento de constante enriquecer, nenhuma visão mais ampla do mundo; esforço de vencer, temor de ser vencido; é já todo o temperamento de «struggle» que se afina na escola e lançará amanhã sobre a terra mais uma turma dos que tudo se desculpam.
Quem não sabe combater ou não tem interesse pela luta ficará para trás, entre os piores; e é certamente esta predominância dada ao espírito de batalha um dos grandes malefícios dos sistemas escolares assentes sobre a rivalidade entre os alunos; não se trata de ajudar, nem de ser ajudado, de aproveitar em comum, para benefício de todos, o que o mundo ambiente nos oferece; urge chegar primeiro e defender as suas posições; cada um trabalhará isolado, não amigo dos homens, mas receoso dos lobos; o saber e o ser não se fabricam, para eles, no acordo e na harmonia; disputam-se na luta.
Urge quanto antes alargar a reforma radical que as escolas novas fizeram triunfar na experiência; que só haja dois estímulos para o trabalho nas sulas: a comparação de cada dia com o dia anterior e com o dia futuro e o desejo de aumentar o valor, as possibilidades do grupo; por eles se terá a confiança indispensável na capacidade de realizar e a marcha irresistível da seta para o alvo; por eles também o sentido social, o hábito da cooperação, a tolerância e o amor que gera a convivência em vez de um isolamento de caverna e de uma agressividade permanente; a vitória de uma ideia de paz sobre uma ideia de guerra.
sexta-feira, 25 de Setembro de 2009
Os Nomes
-Julgo que só numa crise é que os americanos descobrem as outras pessoas. Tem de ser uma crise americana, evidentemente. Se houver um conflito entre dois países que não forneçam aos americanos alguma mercadoria preciosa, então não se verifica a educação do povo. Mas quando o ditador cai, quando o petróleo está ameaçado, então ligamos a televisão e explicam-nos onde se situa o país, qual é a lingua, como pronunciar os nomes dos dirigentes, como é a religião, e talvez se possam recortar dos jornais receitas de pratos persas. Digo-lhe uma coisa, O mundo inteiro se interessa por este curioso modo como os americanos se cultivam. TV. Olhem, isto é o Irão, isto é o Iraque. Vamos pronunciar correctamente a palavra. I-Rão. I-ranianos. Este é um sunita, este é um xiita. Muito bem. No próximo ano estudamos as Ilhas Filipinas, está bem?
Esta Noite Improvisa-se
VERRI
Não. Basta o que quer que seja para te lembrar, que estão sempre vivos... tu não o sabes, mas vivem-te sempre... escondidos por baixo da tua consciência! Dentro de ti continuará sempre a viver a vida que tu viveste! Basta um nada, uma palavra, um sonho, a sensação mais pequena, repara, o cheiro dos sabugueiros e estou de novo no campo, em Agostom rapaz de oito anos, por trás da casa do feitor, à sombra de uma oliveira grande e a ter medo de uma vespa azul que zumbe, sinistra, no meio do cálice branco de uma flor. Vejo-lhe o caule tremer, a essa flor violentada, às mãos da voracidade feroz daquele bicho que me apavora. E ainda aqui o tenho, a este medo, aqui, nos rins!... Agora imaginamos-te a ti, toda aquela bela vida, as coisas que se passavam entre vocês e todos aqueles rapazolas que iam lá a casa, fechados ora neste, ora naquele quarto... não o negues!... eu próprio o vi... coisas... aquela Néné a fingir que lhe fugia para a outra porta que havia ao fundo... havia um reposteiro verde... saiu, e de repente voltou no meio das dobras do reposteiro... tinha um seio descoberto, tinha feito descair a camisola de seda cor-de-rosa... e com a mão fazia sinal, sinal de o oferecer, e de repente escondia-o com a mesma mão... Vi-a eu; um seio maravilhoso sabes? Pequeno, cabia inteiro dentro de uma mão! Podia fazer-se tudo!...
O Retrato
Salvaguarda a pureza da tua alma. Quem transporta o talento em si tem de o ser de alma mais pura. A outro qualquer será perdoada muita coisa, mas para ele não haverá perdão. Se um homem sai de casa com o seu fato de cerimónia claro, basta um salpico de lama provocado pela roda de uma carroça para toda a gente o rodear, lhe apontar o dedo e comentar a sua falta de asseio, mas não repara nas muitas nódoas nas roupas de todos os dias que envergam os outros transeuntes. É que na roupa do dia a dia não se vêem as manchas.
segunda-feira, 14 de Setembro de 2009
O espectro de Wall Street
4.1. AS RAÍZES E FRAGILIDADES DA HEGEMONIA ECONÓMICA
DOS EUA
DOS EUA
A primeira característica desta economia é que, nos Estados Unidos, não há poupança: de cada cem dólares do rendimento disponível, 99,8 são utilizados em consumo e 20 cêntimos são para poupança. A poupança nacional não financia o investimento. A segunda característica é que, para manter o alto nível de consumo de produtos que suporta a hegemonia social, é preciso importá-los e importá-los baratos – da China. Mas isso provoca um gigantesco défice comercial. Os EUA pagam com dólares os produtos que compram. A terceira característica que aqui nos importa é o défice orçamental que Bush elevou até aos céus, em particular com as concessões fiscais aos mais ricos e com o desastre militar da guerra do Iraque.
Por outras palavras, os Estados Unidos são o país mais endividado do mundo e precisam de grandes entradas de capital – dois mil milhões de dólares por dia – para compensar os seus défices de balança comercial, de balança de capitais e de gastos orçamentais. Ora, a única forma de atrair esses capitais é garantir-lhes um benefício importante. E esse benefício é a especulação bolsista (o modelo Greenspan-Clinton de juros baixos visava proteger esse mercado bolsista). Como o diferencial de juros entre a Europa e os EUA é de 4,25% para 2% [o BCE reduziu entretanto o juro de referência na Europa para 3,75%, ainda muito superior ao dos EUA], os capitais iriam procurar os bancos europeus, a não ser que Wall Street oferecesse um diferencial de rentabilidade superior à diferença de juros para os seus depósitos.
Para que esta economia se sustente, a Bolsa americana tem que ser esfuziante, tem que atrair capitais para a Bolsa para compensar o défice comercial e pagar o défice orçamental. O mercado de acções tem que ter taxas de rentabilidade elevadíssimas, e isso justifica todos esses truques que estamos a descobrir: é a financiarização global, com a titularização de todo o tipo de créditos, que são vendidos em pacotes de empresa em empresa.
segunda-feira, 18 de Maio de 2009
O Retrato
Já começavam a propor-lhe cargos honoríficos, a convidá-lo para examinador, para ser membro de comissões. Já começava, como sempre acontece na idade madura, a ser adepto de Rafael e dos outros pintores antigos - não porque se tivesse convencido do alto valor desses pintores, mas para alfinetar com os seus nomes os jovens pintores. Já começava, como é costume da gente que atinge determinada idade, a censurar indiscriminadamente a juventude por ser imoral e pelas suas tendências de espírito perniciosas. Já começava a acreditar que tudo no mundo se fazia naturalmente, que não existia inspiração divina e que tudo devia ser sujeito a uma única ordem rigorosa de pontualidade e de uniformidade. Enfim, a sua vida já rasava aquela idade em que tudo o que respirava entusiasmo se encolhe, em que o som do poderoso violino já chega fraco à alma e não envolve o coração de melodia penetrante, em que um toque do belo já não transforma as forças virgens em chamas, em que todos os sentimentos embotados se tornam mais sensíveis ao tilintar do outo, escutam com maior atenção a sua música sedutora e, a pouco e pouco, sem se dar por isso, se deixam adormecer por completo.
domingo, 26 de Abril de 2009
Vamos Falar de Cinema
Se o cinema é uma mercadoria, quem a produz precisa vendê-la, o que depende de agradar ao maior número possível de espectadores. Se o gosto destes é mau, baixo terá de ser o nível dos filmes. E o produtor fará com que não se eleve, limitando-se aos temas de seguro impacto popular, impondo formas de exposição elementares e negando aos realizadores qualquer audácia artística. Como dizia o filósofo Eugénio D'Ors a alguém que, junto dele, experimentava com uma garrafa de champanhe um novo modelo de rolha que falhou, tendo-se entornado o líquido: «As experiências, meu filho, fá-las com gasosa.»
Do cinema, 95% farse-á com gasosa.
Vamos Falar de Cinema
Ficaríamos admirados se pudéssemos avaliar a importância que o cinema tem no que sabemos. Mas também no que somos. Porque o cinema é muito mais que informação, chegou a fazer parte de nós tão intimamente que nem damos por isso: uma concepção do mundo que devemos á tela; um sentido novo de natureza e da sociedade, da arte da ciência; um humanismo mais vivo do que aquele que poderíamos encontrar nos livros; uma aproximação dos homens na sua concreta dimensão; uma conformação do nosso poder intelectual e da nossa sensibilidade - que não se pode dizer que seja suficiente mas que é, no entanto, indispensável. Pois bem, em tudo isto, a maior parte corresponde ao chamado cinema de evasão, que é precisamente aquele que, sem pretendê-lo, influencia mais o espectador, o qual, paradoxalmente, quanto mais quer fugir da realidade mais profundamente está a aprender na tela o que vai transportar depois para a sua existência: trajos e costumes, maneiras de falar, de sentir e de pensar.
O Inominável
Eu, de quem nada sei, sei que tenho os olhos abertos, por causa das lágrimas que não param de correr. Sei que estou sentado, mãos nos joelhos, por causa da pressão nas nádegas, nas plantas dos pés, nas mãos, nos joelhos. Nas mãos sinto a pressão dos joelhos, nos joelhos, a das mãos, mas o que é que faz pressão nas nádegas, na planta dos pés? Não sei. As minhas costas não estão estão apoiadas. Refiro estes pormenores para ter a certeza de que não estou deitado de costas, pernas dobradas e levantadas, olhos fechados. Convém ter-se a certeza da posição corporal desde o início, antes de passar a coisas mais importantes.
terça-feira, 7 de Abril de 2009
A Tale of Two Cities
Mr. Lorry knew Miss Pross to be very jealous, but he also knew her by this time to be, beneath the surface of her eccentricity, one of those unselfish creatures - found only among women - who will, for pure love and admiration, bind themselves willing slaves, to youth when they have lost it, to beauty that they never had, to accomplishments that they were never fortunate enough to gain, to bright hopes that never shone upon their own sombre lives. He knew enough of the world to know that there is nothing in it better than the faithful service of ther heart; so rendered and so free from any mercenary taint, he had such an exalted respect for it, that in the retributive arrangements made by his own mind - we all make such arrangements, more or less - he stationed Miss Pross much nearer to the lower Angels than many ladies immeasurably better got up both by Nature and Art, who had balances at Tellson's.
Ficções
Ao cabo de nove ou dez noites compreendeu com certa amargura que nada podia esperar dos alunos que aceitavam passivamente a sua doutrina, mas sim dos que arriscavam, às vezes, uma contradição razoável. Os primeiros, embora dignos de amor e de afeição, não podiam elevar-se a indivíduos; os últimos preexistiam um pouco mais.
domingo, 22 de Março de 2009
O Amor é Fodido
Apaixonei-me num momento desprevenido. Estava a ver um jogo de futebol, ela meteu-se à frente do televisor e, em vez de lhe dar um grito, não reparei, pela minha saúde, fiquei ali especado a olhar para ela. Um minuto de exposição foi quanto bastou. Não se pode olhar muito tempo para raparigas bonitas sem este género de merdas acontecer.
quinta-feira, 19 de Março de 2009
O Anel de Basalto
Era sábado, e passeavam-se como de costume os tecnocratas de indústria e os profissionais livres, a cruzar-se com alguns desses espessos casais em fato de treino, obviamente pertencentes a classes de relevo inferior. E mostrava-se a atmosfera geral, a mesma de sempre, povoada pela gente que queria ser vista, e pela que não queria sê-lo, mais pela que pretendia que reparassem que pretendia que não reparassem nela.
Allegro ma non tropo
Legiões de escritores, filósofos, epistemólogos, linguistas têm reiteradamente procurado definir e explicar o humorismo. Mas é difícil - para não dizer impossível - dar uma definição de humorismo. E isto é tão verdadeiro que, quando uma graça humorística não é percebida como tal pelo interlocutor, é praticamente inútil, e até contraproducente, tentar explicá-la.
O humorismo é claramente a capacidade inteligente e subtil de realçar e representar o aspecto cómico da realidade. Mas é também muito mais do que isso. Sobretudo, como escreveram Devoto e Oli, o humorismo não deve implicar uma atitude hostil, mas antes uma profunda e sempre indulgente simpatia humana. Para além disso, o humorismo pressupõe a percepção instintiva do momento e do lugar em que se pode exprimir. Fazer humor acerca da precariedade da vida humana junto do leito de um moribundo não é humorismo. Por outro lado, quando certo aristocrata francês, ao subir a escada que o levava à guilhotina tropeçou num degrau, e exclamou, virando-se para os guardas, "Dizem que tropeçar dá azar", certamente merecia que lhe tivessem poupado a cabeça.
O Anel de Basalto
- Mantendo sempre viva a luz do mais entranhado amor ao Reino de Portugal, aqui tens os veros cavaleiros de Malta, tanta vez insultados pela palhaçada daqueles que em Portugal e a esta mesma hora só por ir a Fátima lavar os pés a peregrinos, tarefa que executam de nariz ostensivamente torcido, a nada mais aspiram do que à gloríola de topar com o seu nome, ó quão amiúde grotesco nome!, Tico e Xuxa, Preta e Joni e quejandos horrores, impresso numa revisteca que conceda cobertura à repugnante snobeira de meia dúzia de retardados mentais.
Estâncias
E ao perguntarem-lhe para que latitudes voltaria agora sua fronte, eis que serenamente respondia: Um coágulo? Um verso: verso que respiras, que até aqui não respirava quem te escreve.
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